sexta-feira, 17 de junho de 2011

Edição nº62



Crónica

Correm duas histórias convencionais sobre os Açores: uma história de fascínio e uma história de evasão. A primeira tende a ser contada pelos forasteiros, enquanto a segunda pertence aos que nasceram no arquipélago ou para aí foram desterrados. São perspectivas complementares em vários sentidos.

O fascínio exerce-se de modo subtil: é preciso romper através da bruma que forra estas ilhas e as afasta da imaginação dos viajantes que anseiam por destinos mais exóticos; já a segunda impressão é opressiva e não encerra nenhum mistério: o espaço insular é limitado e de difícil acesso, o que faz com que todos os seus habitantes acabem por saber uns dos outros, tornando difícil viver a magia do anonimato proporcionada pelas grandes cidades.

Ambos os movimentos têm conhecido desvios e elipses interessantes, motivados pela chegada de novos personagens — dos velejadores, aos professores, investigadores e operadores turísticos, passando pelos intelectuais e artistas estrangeiros de que nos fala Vicente Jorge Silva, pelos comerciantes chineses e ciganos, ou ainda pelas famílias insulares que se foram espalhando por vários pontos do arquipélago. Pode ser que um dia a diversificação dos pontos de vista acabe por dissolver a impressão de complementaridade. Em todo o caso, essa complementaridade traduz um genuíno problema antropológico que se resume da seguinte forma: que experiência se enquadra na formidável paisagem deste arquipélago?

O fascínio de Raul Brandão pelos habitantes do Corvo advinha precisamente da procura de uma forma de vida que encaixasse ali, na mais extrema das ilhas, e que pudesse fazer escola, fundar uma civilização. Era também esse o propósito das dissertações de Nemésio sobre a «Açorianidade», que todavia não deixam de ser sensíveis à questão — na verdade, recorrente — do «emparedamento do ilhéu».

O próprio Brandão cedo compreendeu as limitações duma antropologia insular («todos os dias os mesmos gestos e repetindo sempre a mesma meia dúzia de palavras até à morte»), e não é por acaso que o seu olhar se desvia tantas vezes para o mar e para o céu, para os grandes relevos das ilhas, para os recortes das suas costas, para as falésias cobertas de vegetação. Dir--se-ia que naturalismo e etnografia constituem mundos separados n’As Ilhas Desconhecidas.

De facto, não é fácil conjugar as duas coisas quando se recorre a uma visão empedernida e pontualmente romantizada do autóctone, como a que tem marcado a antropologia açoriana.

Por seu turno, o nexo entre espaços insulares e civilizações alternativas (ou desconhecidas) constitui um tema persistente do imaginário ocidental moderno, impedindo o reconhecimento de que a verdadeira vocação das ilhas assenta sobretudo na contra--civilização, no que não pode fazer escola. Voltamos portanto ao ponto de partida: que formas de vida se ajustam a este cenário que sejam capazes de suplantar as histórias complementares de atracção e repulsa? Em jeito de resposta, apenas consigo evocar o relato de um amigo que passou um verão nas fajãs da mítica ilha das Flores, com uma tenda por abrigo e amoras silvestres por alimento, qual Heraclito reencarnado. Objectar-se-á que também isto é romantizar, e que tais experiências são sobretudo um produto da interioridade, podendo ser vividas em qualquer parte do mundo — mas essa seria uma objecção banal, por não reconhecer que o romantismo se alimenta sempre de uma qualquer miséria, e, principalmente, por descurar a verdura pujante das fajãs, a agitação curiosa do mar, o negro retorcido das encostas vulcânicas, o amplo côncavo das caldeiras, enfim, a tremenda complexidade do céu açoriano, feito de várias camadas de nuvens que se entreabrem de quando em vez para o azul.

Este é o caminho para uma nova antropologia dos Açores.


Daniel Seabra Lopes




Colaboradores:

Capa: Daniel Seabra Lopes
Arquitectura e Artes Plásticas, Gatafunhos: Tomás Melo
Cinema e Teatro: Miguel Machete
Literatura: João Carlos Fraga
Ciência: Inês Martins e PNF
Lacunas: Cristina Lourido e Mário Moniz







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2 comentários:

Luís C. F. Henriques disse...

Boa tarde,
Há uma ou duas semanas atrás enviei um e-mail para o endereço que aparece no blog. Chamo pois à atenção para que verifiquem o mesmo.

Cumprimentos,

Júlio Correia da Silva disse...

Admirável, a capa. Traduz bem a pujança telúrica dos Açores, onde os quatro elementos marcaram encontro. O mar lava a lava debaixo de um tecto de densas nuvens. Admiro o branco berrante, mais berrante do que o vermelho usado por Vittore Carpaccio. Afinal, o branco não representa a ausência de cor mas sim a reunião de todas as cores.