segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Edição nº 29



Crónica

As doenças das Cidades

A Requalificação urbana impõe-se, quando estamos em presença de núcleos urbanos “doentes”, que já não respondem às necessidades dos seus habitantes, residentes ou passantes.Esta desactualização das freguesias e das cidades, poderá verificar-se “dentro de portas” no edificado, ou seja, nas construções, ou “fora de portas” nos espaços urbanos livres, sejam praças, jardins ou nos circuitos pedonais (passeios) e viários (estradas e estacionamentos).Quando estamos doentes, quando o nosso corpo não responde da melhor forma às nossas solicitações, seja pelas dores que sentimos directamente nos músculos, nos ossos ou na... mente, seja pelo deficiente funcionamentos dos diversos aparelhos (circulatório, respiratório, digestivo,...) que fazem funcionar esta “máquina” que nos suporta, consultamos o médico de clínica geral e pedimos a sua ajuda na prescrição de uma receita médica. Se a doença persistir ou mesmo se agravar, então temos que consultar novamente um médico, mas especialista, tendo por objectivo uma acção mais direccionada ao mal de que padecemos.Da mesma forma, funcionam os centros urbanos. Quando não funcionam, quando sentimos “dor” ao percorrê-los, quando a fluidez de pessoas e viaturas é deficiente, há que consultar os médicos especialistas em cidades: os arquitectos, os urbanistas, os engenheiros, etc., consoante seja a especificidade do mal de que as cidades padecem.


Se a “doença” for num edifício, porque ameaça ruir, porque já não responde à actividade que nele se desenvolve, ou porque simplesmente é um mau exemplar de “arquitectura” que importa tratar, então estamos perante um problema edificado, cuja solução, mais ou menos complexa, é pontual e localizada, dizendo respeito ou afectando um número menor de pessoas, pelo que uma prescrição individual será suficiente.Se, pelo contrário, estamos perante uma cidade que “padece” e afecta toda uma população, no seu dia a dia, no seu bem estar, causando uma “dor generalizada” a todos os seus habitantes e passantes, então importa intervir com rapidez, determinação e eficácia, porque o “custo social” é maior, e porque poder-se-á estar perante o risco de uma “pandemia”, que poderá levar essa cidade à falta de atractividade, à desertificação.Nas cidades, as doenças terminais não acontecem por acaso, nem de um momento para o outro.Existem sucessivos sinais de aviso, que, tal como nos humanos, são alertas detectáveis se forem sendo feitas análises periódicas ao seu funcionamento, genericamente falando.O mal do património edificado e urbano é que não é acompanhado ao longo da sua existência pelos seus legítimos e mais directos responsáveis: os proprietários ou gestores da causa pública.


Os humanos devem consultar e fazer análises periódicas ao seu organismo, em laboratórios, pelo menos uma vez no ano (eu faço). E aos animais, fazemos o mesmo?As viaturas deverão fazer revisões anuais, em oficina credenciada (eu faço) e submeter-se às inspecções periódicas obrigatórias (aqui, todos fazem...).As construções (moradias, estradas e jardins), grandes investimentos particulares e públicos, raramente contam com essas revisões periódicas... Por vezes, quando surgem os problemas, a “doença” já está tão avançada, que o remédio já não existe...


Curioso, e lamentável, é que cuidamos melhor de um carro ou de um animal do que de nós próprios, da nossa casa, da nossa freguesia, ou da nossa cidade!É tudo uma questão de hábitos e de educação, ou será uma questão financeira e de prioridades, ou será, ainda e só, uma questão de interesses e de votos?


(Este é o primeiro artigo de uma série de quatro, que visam uma abordagem à arquitectura e urbanismo na cidade da Horta)

Paulo Oliveira




Colaboradores:

Capa: Pedro Gaspar
Crónica: Paulo Oliveira
Cinema e Teatro: Anabela Morais, Aurora Ribeiro
Ciência e Ambiente: Bruno Lacerda
Gatafunhos: Tomás Silva

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1 comentário:

pieta disse...

Apenas um reparo ao artigo "Sobre a Biologia e o Impressionismo".
As células aque chamam "rods" são bastonetes e não são apenas responsáveis pela luminosidade. Numa situação de penumbra ou visão nocturna a nossa visão é na sua maioria assegurada por eles, e quem não gosta de uma média luz??