sexta-feira, 1 de abril de 2011

Edição nº 57





Crónica

Encontros Filosóficos - um projecto de natureza interdisciplinar

Os Encontros Filosóficos são um projecto de natureza interdisciplinar. Nasceram na sequência do trabalho de reflexão/ crítica de problemas do mundo contemporâneo, realizadas pelos alunos de Filosofia. Foi há dezoito anos! E isto significa que os Encontros Filosóficos atingiram a maioridade. E assim sendo, adquiriram pelo menos o “direito” a serem reconhecidos como projecto pedagógico que vingou, apesar das sucessivas alterações de programas, dos currículos, da organização da escola.

Recordo que há exactamente dezoito anos, todos os alunos de Filosofia do 12º ano apresentaram os seus trabalhos na Sociedade “Amor da Pátria”. Sob o olhar atento, compreensivo e disponível da professora Isabel Renaud, levantavam problemas, faziam formulações teóricas, questionavam o mundo, expunham-se, construíam a aprendizagem de forma activa e responsável. Muito tempo antes de se anunciar nos curricula a “Área de Projecto”.

Ao longo dos dezoito anos, realizaram-se encontros, debates e actividades didáctico-pedagógicas de grande mérito. Relembro as Oficinas de escrita criativa com o escritor José Fanha, e José Luis Peixoto, os encontros com os professores Adriano Moreira, Carlos Fiolhais, Galopim de Carvalho, Carvalho Rodrigues, Alexandre Quintanilha, entre outros. As reflexões desenvolvidas por Daniel Serrão, Álvaro Laborinho Lúcio, Mário Soares, o professor Carlos Reis. Passaram ainda pela cidade da Horta poetas e artistas, como João Cutileiro, que desenvolveu com os alunos de Artes, durante uma semana, um workshop de escultura.

No âmbito da formação de professores, recordo o trabalho de hermenêutica realizado pelo José Trindade dos Santos, o workshop de Filosofia para Crianças orientado por docentes da Universidade Católica, os sucessivos encontros com a professora Gabriela Castro, da Universidade dos Açores.

Em 2011 surgem novos e grandes desafios. Professores da Universidade de Santiago de Compostela e Valência deslocar-se-ão à Horta para trabalhar com alunos, professores, empresários e a comunidade em geral (projecto decorrente das parcerias com a CCIH e Associação de Agricultores da Horta). Realizar-se-ão ainda oficinas de escrita criativa e dramaturgia, música e ilustração. Realizar-se-á um workshop de Teatro do Oprimido (em parceria com o Teatro de Giz), um workshop de cinema e fotografia (em parceria com o Jornal Fazendo) São desafios formativos, intelectuais e comunicacionais únicos!
O projecto Encontros Filosóficos, organizado pela Escola Secundária Manuel de Arriaga é um projecto aberto, comum e quer-se participado por toda a comunidade de Pais, Encarregados de Educação, professores e Cidadãos em geral! Inscreva-se nas acções! Participe nos Fóruns de Discussão! Torne este projecto Um ESPAÇO COMUM DE TRABALHO E DE INOVAÇÃO!

Maria do Céu Brito

Colaboradores:


Capa: Luís Silva
Entrevistas: Fernando Nunes
Arquitectura e Artes Plásticas: Rita Braga
Literatura: Cátia Benedetti
Teatro: Tomás Motos, Victor Rui Dores
Ciência: RSS, José Nuno Pereira
Gatafunhos: Tomás Melo

Clicando no quadro seguinte poderá folhear, ler ou fazer download do jornal para o seu computador:


segunda-feira, 21 de março de 2011

Edição nº56





Crónica

Dia Mundial do Teatro

O Dia Mundial do Teatro é comemorado a 27 de Março. Uma das mais importantes manifestações desta comemoração é a difusão da mensagem escrita por uma personalidade de dimensão mundial, convidada pelo Instituto Internacional do Teatro, para partilhar as suas reflexões. Esta mensagem é traduzida em mais de vinte línguas e lida perante milhares de espectadores antes dos espectáculos de 27 de Março, nos teatros do mundo Inteiro.

Este ano a personalidade escolhida foi a africana Jessica Atwooki Kaahwa.

Nota Biográfica de Jessica Atwooki Kaahwa

Professora titular no Departamento de Música, Dança e Teatro da Universidade de Makerere, no Uganda. É doutorada em Teatro, História, Teoria e Crítica pela Universidade de Maryland, nos EUA.

Dramaturga, actriz e directora do teatro académico, escreveu mais de 15 peças de teatro, televisão e rádio.

Distingue-se pelo seu trabalho humanitário. Utiliza o teatro como meio de desenvolvimento humano e como força construtiva em zonas de conflito.

Esta personagem multilingue é acérrima defensora dos direitos humanos, da igualdade de género e da paz.

Mensagem do Dia Mundial do Teatro
O TEATRO AO SERVIÇO DA HUMANIDADE
por Jessica Atwooki Kaahwa

Este é o momento exacto para uma reflexão sobre o imenso potencial que o Teatro tem para mobilizar as comunidades e criar pontes entre as suas diferenças.

Já, alguma vez, imaginaram que o Teatro pode ser uma ferramenta poderosa para a reconciliação e para a paz mundial?

Enquanto as nações consomem enormes quantidades de dinheiro em missões de paz nas mais diversas áreas de conflitos violentos no mundo, dá-se pouca atenção ao Teatro como alternativa para a mediação e transformação de conflitos. Como podem todos os cidadãos da Terra alcançar a paz universal quando os instrumentos que se deveriam usar para tal são, aparentemente, usados para adquirir poderes externos e repressores?

O Teatro, subtilmente, permeia a alma do Homem dominado pelo medo e desconfiança, alterando a imagem que tem de si mesmo e abrindo um mundo de alternativas para o indivíduo e, por consequência, para a comunidade. Ele pode dar um sentido à realidade de hoje, evitando um futuro incerto.

O Teatro pode intervir de forma simples e directa na política. Ao ser incluído, o Teatro pode conter experiências capazes de transcender conceitos falsos e pré-concebidos.

Além disso, o Teatro é um meio, comprovado, para defender e apresentar ideias que sustentamos colectivamente e que, por elas, teremos de lutar quando são violadas.
Na previsão de um futuro de paz, deveremos começar por usar meios pacíficos na procura de nos compreendermos melhor, de nos respeitarmos e de reconhecer as contribuições de cada ser humano no processo do caminho da paz. O Teatro é uma linguagem universal, através da qual podemos usar mensagens de paz e de reconciliação.

Com o envolvimento activo de todos os participantes, o Teatro pode fazer com que muitas consciências reconstruam os seus pré-conceitos e, desta forma, dê ao indivíduo a oportunidade de renascer para fazer escolhas baseadas no conhecimento e nas realidades redescobertas.

Para que o Teatro prospere entre as outras formas de arte, deveremos dar um passo firme no futuro, incorporando-o na vida quotidiana, através da abordagem de questões prementes de conflito e de paz.

Na procura da transformação social e na reforma das comunidades, o Teatro já se manifesta em zonas devastadas pela guerra, entre comunidades que sofrem com a pobreza ou com a doença crónica.

Existe um número crescente de casos de sucesso onde o Teatro conseguiu mobilizar públicos para promover a consciencialização no apoio às vítimas de traumas pós-guerra.

Faz sentido existirem plataformas culturais, como o Instituto Internacional de Teatro, que visam consolidar a paz e a amizade entre as nações.

Conhecendo o poder que o Teatro tem é, então, uma farsa manter o silêncio em tempos como este e deixar que sejam “guardiães” da paz no nosso mundo os que empunham armas e lançam bombas.

Como podem os instrumentos de alienação serem, ao mesmo tempo instrumentos de paz e reconciliação?
Exorto-vos, neste Dia Mundial do Teatro, a pensar nesta perspectiva e a divulgar o Teatro, como uma ferramenta universal de diálogo, para a transformação social e para a reforma das comunidades.

Enquanto as Nações Unidas gastam somas colossais em missões de paz com o uso de armas por todo o mundo, o Teatro é uma alternativa espontânea e humana, menos dispendiosa e muito mais potente.

Não será a única forma de conseguir a paz, mas o Teatro, certamente, deverá ser utilizado como uma ferramenta eficaz nas missões de paz.

Anabela Morais

Colaboradores:


Capa: http://cidadepintada.blogspot.com
Arquitectura e Artes Plásticas: Paula Bacelar
Literatura: Tomás Melo
Teatro: Miguel Machete
Ciência: Fernando Nunes, Carla Veríssimo, PNF
Gatafunhos: Tomás Melo

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quarta-feira, 16 de março de 2011

ÚLTIMA CHAMADA


PROCURA-SE
Banksy no Faial

Não sendo muito verosímil que o londrino Banksy, algures entre uma exposição em LA e umas "tags" no muro na Faixa de Gaza, tenha passado pelo Faial para desenhar umas mulheres do Capote, aqui no Fazendo chegámos à elementar conclusão de que há um novo talento no vasto mundo da street-art faialense (vá, talvez não é assim tão vasto).
Desde que a excelente equipa de olheiros do Fazendo tomou conhecimento deste facto (num telejornal da RTP-Açores, vejam só a quantidade de tecnologia ao nosso dispor) que tentamos localizar o artista para lhe oferecer um faixa e um ramo de flores. Não conseguimos.
Mas tamanha perspicácia deve ser premiada e só por isso o Fazendo faz um fastidioso, fustigado e festivo apelo ao fugitivo (ou move, ou ratinho giro..)(e atenção também porque um apelo aliterado em "fsshhh" não é todos os dias que aparece) para que faça chegar um trabalho gráfico da sua autoria à nossa caixa de correio electrónica - vai.se.fazendo@gmail.com - que será magistralmente exibido na capa do Fazendo. (uma foto duma tag nova por exemplo era muito giro, mas também pode ser uma pintura naturalista). No mesmo mail deve também vir uma prova irrefutável da autenticidade da peça, que será exaustivamente analisada pela nossa equipa forense (que é a mesma dos olheiros mas com mais equipamento).
É favor reencaminhar esta mensagem a todos os vossos contactos na melhor tentativa de chegar ao dito cujo.

Fazendus

P.S. Garantimos toda a discrição relativamente ao endereço electrónico do remetente mas, pelo sim pelo não, aconselhamos a que crie uma conta para o efeito.



quarta-feira, 9 de março de 2011

Edição nº55




Crónica

Mercado de trocas: inédito?

Inédito disseram-me, quando expliquei a uma das pessoas o que era o mercado de trocas directas que vai ter lugar no Castelo de S. Sebastião dia 26 de Março.

Estas coisas das trocas directas, tão comuns nas zonas rurais e no antigamente um pouco por todo o lado, foi/é uma forma encontrada de quem tinha/tem produtos em excesso poder obter outros de que necessitava.

“Queres ovos?”, “Tenho plantio de…” E, penso, um novo ano, um novo ciclo se inicia… Porque não equilibrar?
Desde 1998, quando cheguei ao Faial, tenho contactado com pessoas e hábitos curiosos. Muito me alegra ouvir este apego à Terra e à generosidade, quanto não se ganha ainda com a partilha?!... (Muitíssimo). É esse o grande objectivo deste mercado, partilha de saberes/experiências ligados à terra tendo por pano de fundo a troca directa. Neste dia e local, qualquer pessoa pode trocar certos produtos desde que não seja por dinheiro; não são necessárias inscrições, basta aparecer e trocar.

O mercado de trocas está previsto apresentar-se nesse mesmo local em quatro épocas durante este ano, quase semelhante às estações: Março, Maio, Setembro e Novembro (últimos sábados). Para além dos produtos da terra mais evidentes, podem trocar-se: estacas, sementes, plantios, compotas, plantas aromáticas e/ou ornamentais, flores, pickles, rebuçados, mel… Abre--se ainda ao artesanato ou a quaisquer outros produtos feitos em casa (desde que pelos próprios ou por familiares): malhas, luvas, meias, cachecóis e tudo o que a imaginação e a habilidade forem capazes.

Para trocar há que ter imaginação! Se quer participar e não tem a sorte de possuir nada do indicado pode experimentar fazer um bolo/pão e venha trocar. Mesmo que apareça só por curiosidade ou vontade de observar traga uma chávena para ser ofertado com um chá de boas vindas! A sustentabilidade deste evento é uma palavra de ordem por isso não há lugar a copos de plástico e semelhantes.

Das 15h30 às 17h30 experimente dar outro valor às coisas… de igual para igual. Esta ideia está a ser concretizada por um grupo de amigos, contando com o apoio da Câmara Municipal da Horta (integrando a iniciativa Dias Verdes - ver caixa). Partilhe a sua curiosidade e venha espreitar e trocar no mercado de trocas de 26 de Março… inédito só para alguns!

Lídia Silva

Colaboradores:


Capa: Margarida Melo Fernandes - Lengalenga
Opinião: Lídia Silva
Arquitectura e Artes Plásticas: Ruth Bartenschlager, André Nogueira de Melo
Literatura: Miguel Valente, Mariana Matos
Ciência: Joël Bried
Gatafunhos: Tomás Melo

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Edição nº 54




Crónica

Arquitectura, Natureza e Amor
Caríssimos leitores,

Enviaram-me há uns dias um texto do Gonçalo M. Tavares, intitulado Arquitectura, Natureza e Amor. Trata-se de um pequeno texto editado pela Editora Dafne na colecção editorial OPÚSCULO – Pequenas Construções Literárias sobre Arquitectura. Para quem estiver interessado em conhecer a colecção mencionada pode aceder à página Web da editora – www.dafne.com.pt

Ao ler o título do texto logo reagi à sua temática seguindo a orientação instintiva do significado imediato das palavras que o compõem. Arquitectura, Natureza e Amor, são palavras de peso diferente na nossa cultura contemporânea, se é que algum dia tiveram pesos similares! Juntar estas três palavras é por si só um extra-peso ao que, acredito, sentimos de cada palavra isoladamente. Mas, é esta ténue linha possível de unificação das três palavras que me suscita a vontade de querer partilhar convosco este texto e a supra-vontade de podermos receber na redacção editorial do Fazendo as vossas reacções, reflexões, interrogações, instintos – no fundo, que este repto vos faça, prezados leitores, expor a vossa moral e juízo em volta da Arquitectura, Natureza e Amor.

O sentido desta crónica é este repto.
Gostaria imenso de juntar uma série de textos nossos, publicá-los e durante algumas décadas, diria, as que nos restam! – e sejam bem vindos os vindouros * - discutirmos uma nova escala de peso e leveza para um novo passo cultural. Porque a tradição ensina-nos que a cultura não é estática. E a arquitectura é um muito bom exemplo da constante transição, progressão, retrocesso.

Escreve o autor:
“Se a cultura é a natureza já medida, encaixotada (ou de uma outra forma: se a cultura é parte da floresta que transformamos em vaso), a arquitectura é o expoente máximo do acto de medir, de controlar. A arquitectura é um medir não apenas quantitativo, mas um medir qualitativo. Digamos: um medir que se preocupa com a componente estética: o resultado da medição não deve apenas ser certo, exacto – verdadeiro – mas também confortável, agradável aos olhos – belo, portanto.”

E continua:

“Materiais concretos surgem no mundo humano apoiados/começados pela fita métrica (o humano infiltrado na natureza: tentativa de dominar, através da ordem do número, o animalesco que rodeia a cultura) enquanto os materiais do pressentimento surgem no mundo humano apoiados pelo instinto (instinto: esquecimento súbito, e com consequências, da racionalidade – o animalesco infiltrado no humano).

E mais adiante:

“A arquitectura deverá ser, entre outras coisas, uma ciência moral. Ciência moral mas não moralista. Isto é: não uma ciência que tenha como objectivo aumentar a moral do espaço, não: defender a arquitectura como ciência moral é defender a arquitectura como uma ciência que se preocupa com a relação entre as distâncias, tamanhos, cores, não apenas numa relação de verdade ou beleza, mas ainda, e, por último, numa relação de justiça.

A arquitectura procura o verdadeiro, o belo e o justo – tese clássica. Isto é: ao número não basta ser exacto, terá de ser também belo e justo.
Quantidades belas e quantidades morais. Atribuir adjectivos fortes a não--qualidades como são as quantidades: eis a dificuldade do arquitecto e de qualquer artista ou escritor.”

Depende de nós. Sempre depende de nós a reposição de uma nova escala.
“Leveza não é ausência de peso, mas, sim, presença de leveza. Unidades de Leveza? Precisamos pensar nelas, encontrar-lhes um bom nome.”, denuncia o autor.

E questiona:

“Que cidade para esta floresta? Com que cultura responder a esta natureza? Que medições (exactas, belas e justas) fazer? Em suma: que arquitectura?”

E qual a nossa reacção perante o seguinte dizer de Robert Musil, num dos seus primeiros ensaios, em 1911:
“ Não sou o único (…) a defender a posição de que a arte pode não só representar o imoral e o aborrecido, como também amá-lo.”

Para Gonçalo M. Tavares, como consideração final:

“ O que importa não é a verdade, a beleza ou a justiça de cada coisa olhada isoladamente; o que importa é o que resulta da relação entre as coisas, da ligação entre as coisas. A excitação individual não é classificável até assistirmos aos seus efeitos; a excitação (desejo de ligação) resulta na ligação erótica – a ligação erótica consumada entre casa e espaço (floresta-cidade, natureza-cultura) e só aí podemos julgar o trabalho do arquitecto.
<>, aconselhava o poeta René Char.
O que poderá fazer então o arquitecto? De um modo simples: medir o espaço; tirar o medo ao espaço de modo que a resultante seja o edifício sobre o qual os homens e as mulheres digam, entre si, alto: lá dentro curvo-me apenas por amor. Se tal suceder eis que o arquitecto não fez apenas arquitectura, fez/ construiu um fragmento do discurso amoroso.”

E para cada um de nós, potenciadores deste grito que considerações gritar?

Seremos capazes de tecer um sentimento partilhado e escutar o seu eco? Escrevam-nos.

“O animal não se esquece que é humano: mede, quantifica: procura a verdade.
O humano não se esquece que é animal: pressente, entusiasma-se, exalta-se: procura o belo.”

Albino

Colaboradores:


Capa: Eduardo Brito - Rua da Rosa vista da Travessa de Porto Pim
Música: Miguel Machete
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia,
Lacuna: Andreia Rosa
Literatura: Maria do Céu Brito
Teatro: Ana Luena
Cinema e Gatafunhos: Tomás Melo

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Edição nº 53


Crónica

O Instituto Açoriano de Cultura
Desde a sua génese que o Instituto Açoriano de Cultura se ocupa e preocupa com a consolidação da sociedade açoriana, através da divulgação e do debate de temas ligados à contemporaneidade, no âmbito de um projecto cultural integrado e numa perspectiva de fortalecimento da massa crítica necessária ao desenvolvimento, a partir da “polis”, do nosso futuro colectivo.

Um dos vectores de acção que sempre nos acompanhou, tem sido a organização de seminários, colóquios e debates que, desde as primeiras “Semanas de Estudos”, têm permitido a abordagem consistente e fundamentada de matérias fulcrais e importantes para o entendimento da actualidade.

Outra das áreas de intervenção do IAC vem sendo a divulgação de artistas plásticos e respectivas obras, fazendo deslocar aos Açores exposições da maioria dos mais conceituados artistas nacionais, as quais foram apresentadas por todos o arquipélago açoriano, bem como o estudo e divulgação de obras de artistas açorianos, tais como o Arquitecto João Correia Rebelo, o Pintor José Nuno da Câmara Pereira, entre outros, para divulgação dentro e fora da Região.

No campo editorial, e na qualidade de maior editor regional, o IAC vem, ao longo das suas mais de cinco décadas de existência, mantendo uma actividade regular, destacando-se a Revista Atlântida, os livros do Inventário Imóvel dos Açores e muitas outras obras que estão maioritariamente disponíveis para o público interessado, em diversas livrarias ou através da nossa biblioteca virtual, que se encontra inserida no nosso site (www.iac-azores.org). Essas edições são distribuídas gratuitamente aos nossos associados activos.
Um dos projectos emblemáticos realizado por este Instituto foi a inventariação do património arquitectónico açoriano, desencadeado por um contrato firmado com o Governo Regional do Açores. Este foi desenvolvido nos últimos 13 anos, durante os quais se percorreram todas as ruas, de todas as freguesias dos 19 concelhos açorianos, identificando--se e inventariando-se todas as construções que, à luz de critérios técnicos e científicos, são consideradas exemplares e a proteger.

Outro dos nossos projectos-bandeira foi a produção e edição da primeira História dos Açores que, contando com a direcção científica de Artur Teodoro de Matos, Avelino de Freitas de Meneses e José Guilherme Reis Leite, foi concretizada com a elaboração de textos da autoria de três dezenas de especialistas em cada um dos períodos e áreas tratados. Esta obra, apresentada em dois volumes, retrata historicamente o arquipélago açoriano desde o seu povoamento até ao final do segundo milénio.

Tem sido ainda uma constante da nossa actividade a divulgação de temáticas e intervenientes tão díspares como a performance, a música contemporânea, as instalações… tornando difícil a definição exaustiva de uma instituição que nega e rejeita a si própria qualquer noção de confinamento físico, geográfico, ideológico ou temático. Estamos conscientes que a sobrevivência de estruturas como a nossa depende prioritariamente da importância que a sociedade envolvente lhe atribui. Sendo que, essa necessidade passará obrigatoriamente pelo serviço prestado e pelo contributo social concretizado.

Com esse objectivo e, como instituição de natureza associativa considerada de utilidade pública e sem fins lucrativos, que conta com um número de associados que ultrapassou no passado ano de 2010 a barreira do milhar, propomo- -nos a dar continuidade a esse projecto sempre actual de, através da cultura, reivindicarmos um papel activo e produtivo a nível regional, nacional e (porque não?) global.

Paulo Raimundo - IAC

Colaboradores:


Capa: "A Nebulosa Planetária da Hélice" de NASA, ESA, C.R. O’Dell, M. Meixner e P. McCullough
Ciência: Pedro Afonso
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Margarida Melo Fernandes
Música e Literatura: Victor Rui Dores
Cinema e Gatafunhos: Tomás Melo

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Edição nº 52


Crónica

Lisboa-Horta ou a razão de 2011
É Janeiro, início de um novo ano, as pessoas fazem desejos, têm esperança, prometem coisas, arriscam previsões, afiançam recomeços, elaboram metas, adormecem sobre as promessas de um 2011 melhor que o ano precedente. O que seria de nós se fossemos obrigados a ver o tempo como algo linear, se não tivéssemos esta sensação de novidade, o impulso de conferir sentido renovado aos dias do calendário que agora se inicia, esse desejo de ter coisas que possam recomeçar a cada instante? E como nós gostamos de ver surgir no tempo cronológico oportunidades novas, querenças e desafios em catadupa, por isso encaramos o nascimento de um ano como se de um outro ciclo se tratasse…

Avião de Lisboa para o mundo escrevia também o Alexandre O´Neill e nós aqui sentados numa cadeira de avião que nos transportará para um mundo salino e verdejante. Ainda que novamente sem conseguir escrever absolutamente o que quer que seja, isto é, quase nada. Não se importa de tirar tudo, repetia o segurança do aeroporto, não fosse transportar poemas em forma de explosivos para o arquipélago mais ocidental. Apetecia tanto dizer que há tanta poesia nas livrarias e nas bibliotecas que construiríamos uma ponte atlântica entre o continente e as ilhas e não seria necessário voar, por isso dá tanta vontade de engolir os livros, os cadernos e os poemas e guardá-los na memória para depois repeti-los a toda a hora a quem quisesse. Ou então permanecer em silêncio profundo, durante dias a fio sem nada para dizer, em retiro absoluto. À espera que o nevoeiro passe até que a palavra crise, agora vomitada e repetida até à náusea se cale em cada boca, em cada olhar, pois mesmo assim vamos desconhecendo, felizmente, o que escreveria Virgínia Woolf, a 5 de Janeiro de 1918: “Está tudo racionado, agora. A maioria dos talhos está fechada; o único talho que estava aberto foi cercado. Não se pode comprar chocolates, nem caramelos; as flores estão tão caras que tenho de apanhar folhas para as substituir. Temos senhas para a maioria. As únicas montras onde há abundância são as lojas de fanqueiros. Outras lojas exibem latas ou caixas de papelão, vazias sem dúvida. (…) Subitamente já se dá pela guerra em todo o lado. Suponho que deve haver ainda algumas ilhas de luxo, intactas, algures – talvez nas casas das quintas da Northumbria ou da Cornualha; mas a mesa das pessoas comuns está bem vazia. Os jornais, no entanto, florescem, e por seis dinheiros ficamos fornecidos de papel que chega para acender o lume durante uma semana.” E, finalmente, o avião a levantar… E, por vezes, lá vem o ensejo de ficar por aqui a ver o jogo e também jogar, pois quem não joga não ganha nem perde e há muito que sabemos que anda por aqui muita coisa errada. Apetecia-me por isso reencontrar a poesia à volta de Lisboa do Alexandre O´Neill e permanecer somente a olhar, a tentar ver se revejo aquele gesto ou então avião de Lisboa para o mundo, agora que eu sei que toda ou qualquer esperança já foi a enterrar. Resta-me apenas os dias claros de Agosto, a descoberta das árvores no Botânico pela manhã, o sossego estival do jardim do Príncipe Real, as ruas e ruelas de Alfama, enquanto for possível meditar ou esquecer tudo o que a memória – essa maldita – teima em querer guardar. E se ao menos houvesse duas nuvens de razão tocadas…

Fernando Nunes

Colaboradores:


Capa: "Cachalotes dos Açores" de Les Gallagher
Ciência: José Bettencourt
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia
Literatura: Eduardo Bettencourt Pinto
Gatafunhos: Tomás Silva

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Edição nº51


Crónica

Pensar Global, Agir Local

O Município da Horta prosseguiu e aprofundou em 2010 o seu compromisso de implementação da Agenda 21, um instrumento assente no desenvolvimento sustentável cujo lema é Pensar Global, Agir Local.
Transversal à sociedade, cruza os grandes sectores de desenvolvimento com equilíbrio, consistência e flexibilidade, caracterizando-se, essencialmente, pela inovação, envolvimento comunitário, parceria, interacção, responsabilização e confiança, integrando factores económicos, sociais e ambientais.
Em 2009 foi criado o Grupo Coordenador, com representantes da autarquia e de algumas forças vivas do concelho, e foi assinada a carta de Aalborg, que nos vincula ao processo da Agenda 21, cumprindo-se a primeira fase do processo.
Em 2010 as nossas metas foram de aprofundamento de conhecimentos, de sensibilização a todas as forças vivas da sociedade (Escolas, Juntas de Freguesia, Instituições Governamentais, Universidade – DOP e Universidade Sénior, Associações Culturais, Organizações Ambientais, de Serviço Social, Câmara de Comércio e Indústria da Horta, Empresas, Órgãos de Comunicação Social), e de diagnóstico, seguindo, desde logo, as recomendações internacionais, com as adequadas adaptações locais.
A sensibilização teve duas componentes: interna e externa. A interna começou, numa primeira fase, pela divulgação na Câmara Municipal da Horta das boas práticas já instituídas e a sensibilização para as que ainda não fazem parte do nosso quotidiano; numa segunda fase, pretendeu atingir os sectores mais decisivos da comunidade local numa sensibilização externa que vai continuar em 2011.
2011 – o ano da mobilização
A mobilização irá concretizar-se principalmente a partir do diagnóstico que determinará as áreas onde devemos incidir um plano de acção a estabelecer com o apoio de toda a sociedade.
Para fazer a caracterização do faialense, circulará um questionário a partir do dia 17 deste Dezembro, que continuará em Janeiro de 2011 até se recolher uma amostragem fidedigna da população: dez por cento. Os temas são os pilares da Agenda 21 Local e irá detectar os hábitos e a disponibilidade para a mudança dos faialenses, auscultando a sua opinião sobre o seu nível de satisfação com as instituições.
A fase de elaboração do plano de acção identificará as necessidades, as expectativas, os recursos, as prioridades, e promoverá ainda a sustentabilidade ao nível local e a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e do ambiente, bem como o bem-estar social.
Esta fase compreenderá a criação de outros grupos de trabalho e de um fórum participativo que, em estreita colaboração com o grupo coordenador participarão na reflexão e na construção de uma rede de desenvolvimento de um trabalho articulado e abrangente que irá tocar as áreas da Agenda 21 para promover a sua sustentabilidade: ambiente, sociedade e economia.

Alzira Silva - Vereadora da Câmara Municipal da Horta

Colaboradores:


Capa: "Mocho" de Diana Catarino Literatura: Luís São Bento
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia
Música: Andreia Rosa
Teatro e Cinema: Lia Goulart e Maria do Céu Brito
Ciência e Ambiente: Roman e Teresa, Valentina de Matos
Gatafunhos: Tomás Silva

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Edição nº 50


Crónica
Cinquenta
Lembram-se que nos livros do Astérix, todas as histórias começavam com uma apresentação da aldeia em que diziam que estávamos no ano 50 A.C. e que nem toda a Gália estava ocupada pelos romanos? É uma datação especial, não só por ser sempre a mesma em todas as aventuras, como pela particularidade de ser 50 anos antes de Cristo. É especial o facto de dizer "estamos no ano de" e não "estávamos no ano de". Claro que em 50 A.C. ninguém dizia "Estamos no ano 50 A.C.", porque ninguém podia adivinhar que dentro de 50 anos ia nascer alguém cuja importância fosse suplantar a de Júlio César. E em 50 A.C. nem sequer tinha começado ainda a Era de César, que só teria início 12 anos mais tarde, em 38 A.C. Este exemplo só é para aqui chamado para nos situarmos na dimensão convencional do tempo e, mais concretamente, dos números.

É que o tempo conta-se assim: começamos num princípio que somos nós que escolhemos e, vamos por aí afora a contar o tempo de forma crescente. Normalmente há sempre mais e mais tempo acumulado. A menos que estejamos a falar de Mundiais de Futebol ou coisas assim Grandiosas como essas, em que se afixam uns grandes relógios/calendários a dizer "Faltam X dias" e o número vai decrescendo até chegar ao bombástico final, o zero, apito da partida.
Celebrar um aniversário, ou um Jubileu (que é quando se celebram 50 anos, ou múltiplos deste) só faz sentido num espírito de convenção. Porque tudo isto são invenções humanas. De "alguns" humanos... Os próprios números foram inventados. Um, dois, três e muitos é o total de percepção numérica que têm alguns animais e povos humanos.

Então, se isto é tudo invenção, coisas abstractas, porque é o 50 melhor ou mais importante que o 49 ou que o 51? Porquê também, assinalar a quinquagésima edição deste jornal? E nem são 50 anos. São só 50 edições...

Cinquenta é, sobretudo, um número de respeito. Deus disse que preservaria a cidade de Sodoma se encontrasse por lá 50 pessoas rectas. Não encontrou. Mas se tivesse encontrado! As outras podiam ser piores que o Diabo, que se houvesse 50 pessoas rectas, por causa delas, a cidade não estaria perdida. Cinquenta é então um número a partir do qual a coisa começa a ser sólida, a ter corpo, a existir!

No Antigo Testamento (Levítico 23: 14-16) contavam-se cinquenta dias desde a Festa dos Primeiros Frutos para celebrar o Pentecostes que significa em grego "Quinquagésimo". No Calendário Cristão, os cinquenta dias passam a contar-se a partir da Páscoa, para celebrar a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos… esta é, como se sabe, a mais característica festa religiosa açoriana.

E há a história das Danaides, da mitologia grega. A Danaides eram 50 filhas de Danao. O irmão de Danao, Egito, rei das Arábias e do actual Egipto, tinha 50 filhos: os Egitíades. Egito teve a ideia muito prática de casar os primos todos entre si, para preservar a linhagem, contra a vontade de Danao. Após ter perdido uma guerra, da qual teve que fugir, Danao foi obrigado a aceitar a proposta casamenteira, mas entregou a cada uma das raparigas uma adaga e ordenou-lhes que matassem o seu marido na noite de núpcias. Houve uma que não o fez (Hipermnestra poupou o noivo Linceu). As restantes 49 obedeceram ao pai e continuam ainda hoje e por esse motivo, no Tártaro, Hades, a encher de água um tonel sem fundo, num dos variados e imaginativos suplícios que os deuses gregos souberam inventar.

Por falar em casamentos, 50 anos do mesmo (as Bodas de Ouro), são o patamar mais glorioso da vida conjugal, que, ironicamente, se associam mais a uma batalha vitoriosa do que a um duradouro e áureo deleite.

O número cinquenta é também sempre o de uma metade. Não só em termos percentuais mas principalmente eles são a metade da nossa Esperança Plena de Vida, já que não conhecemos casos de imortalidade. Depois dos cinquenta, não há cá setenta e cincos… Os olhos ficam postos é nos 100.

Aurora Ribeiro

Colaboradores:

Capa: as 49 capas do Fazendo
Artes Plásticas: Ana Correia
Teatro e Cinema: Urbano Bettencourt e A.R.
Teatro e Cinema: Tiago Vouga
Ciência e Ambiente: Ana Sofia Matos e PNF
Gatafunhos: Tomás Silva

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Edição nº 49


Crónica

mostra LABJOVEM 2010

E a Mostra LABJOVEM chega ao Faial. Depois de São Miguel e Terceira, a exposição colectiva dos trabalhos seleccionados em 2009 no âmbito do LABJOVEM – Concurso de Jovens Criativos dos Açores, estará patente na Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça de 12 de Novembro a 5 de Dezembro de 2010.
O LABJOVEM – Concurso de Jovens Criadores dos Açores é um programa promovido Governo Regional dos Açores, através da Direcção Regional da Juventude, com organização da Associação Cultural Burra de Milho, cujo objectivo é o incentivo e promoção da criatividade dos jovens açorianos. E tem-no sido. Não só porque tem havido cada vez mais concorrentes e interessados nas edições futuras – da 1ª à 2ª edição houve uma duplicação de concorrentes –, como também têm surgido oportunidades de exposição dos trabalhos seleccionados, como foi o caso da Semana Açoriana no Teatro São Luiz, em Lisboa, que contou com trabalhos de seleccionados em ambas as edições do LABJOVEM, e a apresentação do seleccionado de música e vídeo em New Bedford.
Inicia-se, ao mesmo tempo que se prepara a 3ª edição do concurso, a fase das bolsas de estudo atribuídas aos primeiros seleccionados das onze áreas concorrentes. Na primeira edição, os seleccionados tiveram a oportunidade de receber formação (no continente português, Itália, Inglaterra, Estados Unidos da América e Argentina) nas suas respectivas áreas de criatividade. Em 2011, coincidente também com a fase de entrega de candidaturas da 3ª edição, decorrerá a fase das bolsas de estudo, as quais permitirão ser uma ajuda na formação e no percurso criativo dos jovens seleccionados, permitindo o desenvolvimento de competências e o contacto com novas realidades culturais e criativas.
É na Horta que se encerra o ciclo da exposição, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça; e é no Clube Naval que serão apresentados os seleccionados de música Flávio Cristóvam & the Jamandizen Band, da Terceira e, tocando em casa, os Wicked Jamaica, do Faial.
É na Horta que serão apresentados alguns dos trabalhos criativos que os jovens açorianos têm produzido e que, no caso do LABJOVEM, submeteram à apreciação de um júri idóneo que os seleccionou como representativos da modernidade e contemporaneidade cultural dos Açores.
A não perder.

Rogério Sousa - Presidente da Ass. Cultural Burra de Milho

Colaboradores:

Capa: Margarida Madruga
Página 2 e Cinema: Fernando Nunes
Artes Plásticas: Ana Correia
Ciência e Ambiente: José Nuno Pereira, Fernando Tempera e PNF
Gatafunhos: Tomás Silva

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