domingo, 18 de outubro de 2009

Edição nº24


Crónica

A Turquía e a União Europeia


A primeira coisa que perguntei ao primeiro turco que encontrei foi "qual é o sentimento da Turquia sobre a adesão à União Europeia?". De certa forma, foi uma pergunta muito positiva porque, sem ser agredido fisicamente, fiquei a saber qual um dos tópicos sensíveis na Turquia e aprendi uma série de expressões de enorme desconforto (leia-se, palavrões). No final, o meu interlocutor resumiu os seus sentimentos em "espero que os nossos políticos esqueçam essa ideia, porque a dignidade dum povo tem os seus limites!". Não o sabia previamente, mas nos dias seguintes utilizei um método expedito para determinar as possibilidades da Turquia entrar na União Europeia.

Quando entrei no barbeiro, um jovem de vinte e poucos anos, fã do Cristiano Ronaldo, esmerou-se a cortar-me o cabelo de acordo com o desenho que eu tinha escolhido numa revista de penteados que havia na barbearia. Era impossível a comunicação porque o inglês dele apenas era comparável com o meu turco. Apesar disso, tudo estava a correr normalmente e fiquei positivamente surpreendido por utilizar uma lâmina descartável. Na verdade, estava tudo a correr bem até que aproximou uma chama das minhas orelhas e me queimou! Fiquei tão surpreendido que estive para fugir, mas ele não me deixou mexer. No momento seguinte, já estava a enfiar um instrumento pelas minhas narinas e a aparar-me os pelos do nariz. Não contente, continuou nas sobrancelhas. Estudei a distância até à porta e, quando me preparava para correr, ele enfiou-me a cabeça dentro de uma bacia cheia de água e lavou-me, em simultâneo, a cabeça, a cara e as orelhas... Quando me libertou, eu estava tão baralhado e sem fôlego que não tive discernimento para efectuar qualquer gesto, até porque ele já me estava a colocar uma loção misteriosa na cara. Rendi-me ao mesmo tempo que sentia os músculos da cara a descontraírem-se. Nesse momento percebi que o Ocidente perdeu esta capacidade de tocar nos outros sem complexos. Aqui os homens andam de mãos dadas com os homens e cumprimentam-se de beijo na cara. Em Portugal é impensável que um homem cumprimente desta forma alguém do mesmo sexo sem que seja seu familiar directo. A sua sexualidade seria imediatamente posta em causa. Olho para o lado e, escândalo!, está uma criança a fazer uma massagem nos ombros de um maganão! Não é possível. Chamem já a polícia! Ainda por cima, o maduro parece estar a gostar! "Calma, Frederico, pensa... Entre esta criança, nitidamente familiar do barbeiro, estar alienada a jogar PlayStation, a drogar-se ou a consumir outros estupefacientes (televisão, álcool, etc) ou a ajudar a família, fazendo uma operação delicada, responsável e lucrativa, o que te parece melhor?". Oh, não! Agora passou à face! Os dedos da criança passeiam sobre a cara do homem fazendo gestos circulares, experientes e competentes. A expressão de delícia do adulto não dá margem para dúvidas. Estou baralhado. Estou mesmo baralhado... Isto, nos meus olhos ocidentais, parece-me francamente errado, mas não consigo encontrar justificação forte para a minha moralidade de trazer por casa. No final, verifico que o cliente, para além de ter pago uma bela maquia pelo trabalho de corte de cabelo (versão completa, como o meu) e restante serviço, ainda pagou uma generosa gorjeta ao rapaz, o equivalente a um almoço.

Queimar, praticamente, afogar um cliente e usar trabalho infantil... Apenas numa simples ida ao barbeiro, fiquei a perceber porque é que a Turquia nunca entrará na União. Estou a voar sobre a Turquia, despedindo-me deste vasto e populoso país com saudade. Quando olho lá para baixo penso que, realmente, eles não precisam.


Frederico Cardigos


Colaboradores:

Ilustração: Catarina Krug
Crónica: Frederico Cardigos
Cinema: Aurora Ribeiro e Miguel Machete
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Miguel Valente e Tomás Silva
Literatura: Ilídia Quadrado
Ciência e Ambiente: José Nuno Pereira e Pedro Monteiro
Gatafunhos: Tomás Silva
Revisão: Sara Soares
Lacunas: Frederico Costa


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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

CARLOS MEDEIROS & Os Outros - Lenga Lenga
Aniversário Fazendo na C.A.S.A., Horta, a 10 de Outubro de 2009

sábado, 3 de outubro de 2009

Edição nº23


Crónica


Uma vez li numa parede que a “A ética é estar à altura do que nos acontece” (Gilles Deleuze). Esta afirmação pode ser verdadeira para os tempos mais conturbados, onde naturalmente se esperam comportamentos éticos e épicos, mas também para os tempos mais calmos. Mesmo quando tudo está conturbado à nossa volta – no país e no mundo – é possível sentir, no Faial, que estamos numa ilha onde há tranquilidade, há paz.

Mas esse privilégio, o da “ilha de paz” pede que se faça algo. Assim, para estarmos à altura do que nos acontece, para estarmos à altura dessa paz, harmonia, beleza, que se nos oferece é desejável que algo se faça no sentido da manutenção desse estado. O fazer em prol de, o dar, não é um dever mas sim uma oportunidade que nos é concedida. Porque quando estamos a dar, quando temos essa oportunidade, temos também oportunidade de receber em satisfação, em sentido de cumprimento da nossa missão.

Nos Açores as dádivas por parte da paisagem são múltiplas: cada mergulho no mar é uma dádiva; cada pôr-do-sol no Pico é também uma dádiva; aqui o mar e a terra conjugam-se para criar uma paisagem viva, jovem, vibrante, em constante mutação, mas, ainda assim, com um carácter muito próprio. Como retribuir? Como dar à paisagem e assim assegurar um equilíbrio subtil feito da relação entre o homem e o meio natural?

Uma hipótese será através da resolução das fragilidades que essa paisagem apresenta e que são visíveis, por exemplo, na proliferação de vegetação invasora introduzida pelo homem. Este é um grave problema colectivo que requer um empenho colectivo, enquanto sociedade e governo, mas também individual.

E o empenho individual pode ser de molde a que cada um de nós decida dar algumas horas do seu tempo livre ao combate das invasoras em áreas protegidas, como é o caso da Paisagem Protegida do Monte da Guia. Este tipo de comportamento beneficia em primeira instância quem o tem, e beneficia, em segundo lugar, a paisagem.

Com a organização do Jardim Botânico do Faial e inserida na tese de doutoramento “A preservação do carácter da paisagem açoriana: aplicação em áreas protegidas nos Açores” está em preparação uma acção de voluntariado para erradicação de invasoras na Paisagem Protegida do Monte da Guia. Vamos ajudar?



Cláudia Gomes


Colaboradores:

Ilustração: Paulo Neves
Crónica: Cláudia Gomes
Entrevista: Aurora Ribeiro
Cinema: Aurora Ribeiro e Fausto Cardoso
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia e Pedro Monteiro
Literatura: Ilídia Quadrado
Ciência e Ambiente: Ana Pinela, Cláudia Gomes, Cristina Carvalhinho, Dina Dowling e João Melo


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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Edição nº22


Fazendo - Capitulo I


Iniciou-se o Fazendo com o Outono passado. Chegados ao meio do Verão decidimos dar por encerrado o primeiro ciclo deste nosso boletim e fazer uma pequena pausa antes de regressarmos novamente com a estação das frutas (a comunicação social mais ligada à cultura chama-lhe reentrèe).

Fim de um ciclo, dizemos. Primeira etapa de um percurso que nos atrevemos a chamar colectivo – e assim o queríamos. Seguindo um paradigma recente de informação democratizada, pretendeu-se estimular a comunidade a criar mais oferecendo-lhe uma janela para mostrar essas criações. Simultaneamente fomentou-se a partilha de conhecimentos e discussão daquilo que outros fazem, noutras comunidades, para que possamos integrar esses elementos novos naquilo que fazemos. Na primeira edição afirmáva-mos não ter “jornalistas creditados, profissionais peritados ou críticos conceituados”, somente uma vontade de fazer e de crescer colectivamente que, achamos nós, foi bastante partilhada ao longo deste ano. No entanto, pode e deve ser mais.

Cultura e ciência, duas disciplinas que ao longo da história mantiveram um diálogo constante - ora servindo a ciência como matéria da arte, ora a arte aproveitando-se dos progressos da ciência para veicular a sua expressão – foram o objecto escolhido. Não gratuitamente, diga-se.

Pode-se entender a cultura como espelho social e individual, meio de reflexão e até de educação. Embora muitos a achem supérflua é inegavelmente uma constante no quotidiano, quer nos objectos a que agora chamamos artesanato e que um dia foram instrumentos de trabalho imprescindíveis, quer mais recentemente na música que não podemos deixar de ouvir quando vamos ao supermercado, nas esculturas que adornam rotundas, no design inerente a qualquer publicação ou até numa certa plasticidade artística que subtilmente vai sendo utilizada por alguma telepublicidade mais arrojada. Querendo ou não, vivendo numa sociedade ocidental (ou ocidentalizada), atrevo-me a dizer que a cultura é algo que está praticamente em toda a parte e que é impossível não consumir. Ora, utilizando uma analogia dietética, qualquer pessoa compreende que aquilo que come é literalmente o que vai constituir o seu corpo e daí se compreender a necessidade de algum cuidado com os alimentos escolhidos. Saber escolher, filtrar e interpretar o que irá ser alimento dos restantes sistemas que não o digestivo, torna-se imperativo para cuidar de outros tipos de saúde não menos importantes. Nem toda a gente tem de saber quem foi Schubert da mesma maneira que um erudito em Sartre não tem de saber arranjar o carro. A quantidade de informação e de estímulos é cada vez maior e a necessidade de escolher e filtrar, inevitável. Alguma atenção a esse bicho estranho da cultura, como ao menos estranho que é a ciência, pode contribuir para essa melhor saúde, penso. O próprio exercício criativo ajuda a pôr as ideias em ordem.

Para finalizar, que o esforço no sentido de uma comunidade em crescimento (pelo menos qualitativo) seja cada vez mais partilhado e que se abandonem preconceitos que para isso em nada contribuem - o de elitismo da cultura à cabeça. Até à “reentrada”, em setembro, agradecemos a todos os que participaram neste projecto, e mais uma vez deixamos aqui um braço estendido e um convite reiterado para que mais o vão fazendo.


Pedro Lucas


Colaboradores:

Ilustração: Francisco Silva
Crónica: Pedro Lucas
Chegadas: Aurora Ribeiro
Gatafunhos: Tomás Silva
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Aurora Ribeiro e Pedro Monteiro
Literatura: Ilídia Quadrado
Ciência e Ambiente: Dina Dowling e Filipe Moura Porteiro
Lacunas: Tomás Silva


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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Edição nº21


Crónicazinha


Perspectivar o futuro do edifício do Banco de Portugal reclama o conhecimento da sua história, do que representou e representa, ainda hoje, no contexto urbano da cidade da Horta. Este edifício marcante foi construído nos anos trinta do século XX e faz parte de "um todo coerente"*, que constitui a área urbana do centro da cidade. A fachada em pedra calcária dialoga com o basalto negro que reveste a fachada da Igreja de S. Francisco, construída no sec XVII e a leveza do Jardim Eduardo Bulcão.

Enquanto interventora cultural, só posso desejar que o edifício do Banco de Portugal seja um Espaço destinado às Artes; uma Academia de Artes.

Fundamento: a dignidade do edifício justifica que o Município lhe dê um fim social e culturalmente nobre. O facto de ser constituído por dois pisos permite projectar oficinas no res-do-chão e exposições no primeiro piso, uma área completamente revestida a mármore, com uma enorme dignidade.

É possível ainda projectar jardins e uma Residência de Artistas no espaço exterior, contíguo à Rua Conselheiro Miguel da Silveira. A recente exposição de pintura de Pedro Solá demonstra que a ilha é um espaço de criação, por excelência, para aqueles que libertos da alienação do quotidiano, se entregam às artes e ao processo criativo.

* in Inventário do Património Imóvel dos Açores

Maria do Céu Brito


Colaboradores:

Ilustração: Ana Correia
Crónica: Maria do Céu Brito
Chegadas: Aurora Ribeiro
Gatafunhos: Tomás Silva
Cinema: Aurora Ribeiro
Música: Eugénio Viana
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia e Eugénio Viana
Literatura: Ilídia Quadrado
Ciência e Ambiente: Cristina Caravalhinho e Dina Dowling 
Lacunas: António Jorge da Câmara, Rui Assunção e Tomás Silva


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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Edição nº20


Crónica das oito teorias ou um ensaio do novo tipo, pois eu não tenho a paranóia dos romances


Quando eu era puto, tinha a mania de me ocupar em tentar consertar o mundo. O meu mundo. A ilha. O espaço em que me movia. Remendava aqui e ali, tirava dacolá, acrescentava algo de novo a certas coisas, que a meu ver eram importantes. Conversava muito. Conversava com os mais velhos, com uns e com outros, sobre tudo e sobre nada, mas a dada altura cheguei à brilhante conclusão, que esta coisa de mudar o mundo, é cá uma trabalheira, um projecto com dimensões e contornos brutais, e cansei-me. Cansei-me logo nos primeiros meses do ano em que completava os 15 anos. Olhei então à minha volta, e pensei na séria hipótese de escrever um Livro de Teorias. Isso mesmo. Teorias. Teorias das mais variadas e para as mais diversas necessidades pois uma pessoa não sabe o dia de amanhã. Porquê? Não sei. Nem penso muito nisso. Apenas penso nas teorias, e em ver o meu rico livrinho publicado. Sempre poderei ganhar alguns trocos, pois há sempre pessoas que vão em cantigas, mesmo em sol baixinho.
Pois bem. Comecei com brevíssimos apontamentos. Rabiscos em guardanapos, toalhas de mesa, nos maços de tabaco e no verso dos talões das compras. Outro dia, falei deste Livro de Teorias, a um amigo de longa data. Este, deveras curioso, pretendeu obter alguma informação detalhada sobre a hipotética publicação. Fez-me perguntas. Muitas perguntas e difíceis – para variar – e não hesitei por citar alguns exemplos dessas minhas teorias já anotadas. Vejamos:
Exemplo 1: Tenho como teoria o seguinte: quanto menos um adepto de um clube desportivo entende de futebol, mais alto fala. Outro dia, num café, mesmo perto da casa onde pernoito, e onde vou regularmente satisfazer o meu vício de fumador de tabaco, dois tipos falando de um certo e determinado encontro futebolístico, e aos berros, não davam uma para a caixa. Diziam um chorrilho de disparates. Cada um pior que o outro. Cada cova, cada minhoca, cada cavadela, cada cagadela. É pá, eram seguidas - contou-me alguém entendido nessa nobre arte de discutir futebol. A partir de então, esse tal meu amigo, começou por concordar com esta minha teoria, o que me deixou deveras entusiasmado. Se vontade tinha para avançar com o Livro das Teorias, com mais vontade fiquei.
Tenho outra teoria: Um sujeito quando compra um carro novo, espaçoso, com ar condicionado, airbag, jantes especiais, alta cilindrada, etc. menos tolerante ele é, com tudo e com todos.
Qualquer um pode fazer o teste. É só passear pela marginal da Horta. Outro dia, um senhor já com uma certa idade, conduzia um carro, daqueles que não sei como passam na inspecção, um tanto ao quanto em mau estado, pneus carecas, escape preso por um arame e retrovisor rachado pelas desgraças do tempo e da vida. Quando me preparava para atravessar a estrada, ele começa a parar bem ao longe e fez-me sinal para passar. Melhor ainda. Até esboçou um simpático sorriso. Lindo! Não adianta ter pressa, o melhor mesmo é sair à hora certa, que isto de andar com pressa é um stress do caraças.
Dias depois, avisto um “alto carro”, todo xpto, com ar condicionado, auto rádio, mp3, leitor de cd, dvd, telefone, televisão, micro-ondas, frigobar, churrasqueira, wc, jacuzzi, piscina e sei lá que mais… Quando começo a atravessar a passadeira, o espalhafatoso condutor - qual figurinha de filme de Emir Kusturika - prego a fundo, acciona a puta da buzina, o que me leva a tomar as devidas precauções. Deixei-o passar, antes que fosse completamente cilindrado. Pior que isso: O tipo estava cá com um mau humor, (mau humor sistemático) por algum motivo que nem Freud encontraria explicação para tanto azedume.
Outra teoria: Quando um sujeito inicia um processo de mestrado, descobre que é um autêntico burro.
Aconteceu e acontece a vários amigos meus. Um tipo é um bom profissional, dá conta do recado, lê os seus livrinhos, vai ao cinema, tem uma certa base crítica, não é nenhuma sumidade intelectual, mas resolve fazer um mestrado. Na primeira semana, descobre que as pessoas andam a dizer coisas muito mais interessantes… Enfim, começa mesmo a perceber que é meio burrinho, mesmo. A sorte é que no segundo semestre, lê que nem um camelo, começa a dizer coisas importantes, e não se acha mais tão quadrado assim.
Teoria número quatro: Um crítico de cinema vê o filme que vimos, mas é um outro filme.
Tirando o João Lopes, da SIC, que gosto muito, o crítico de cinema parece que vê sempre outra coisa. Quando a gente vê um drama humano, algo para repensar a vida, o crítico acha que o cinema está também em crise, e “não acerta o paradigma de uma estética existencialista". Quando o filme é aquela seca do início ao fim, e saímos do cinema com uma forte dor de cabeça, querendo tomar umas bejecas ou um whiskie para relaxar, o crítico entende que “a estética inovadora deu um novo impulso à narrativa, optando pela pluralidade”. Dá vontade apenas de dizer: é ruim, heim? Olhe, vá à merda…
Outra teoria: Cachorro é a cara do dono.
Podem olhar. Vem um fulano gordinho, o cachorro é gordinho. Vem um tipo magrinho, o cão é magrinho. Vem outro gajo que não se cala, o cão não para de ladrar. Vemos um cão que encontra outro cão e lhe vai ao rabo, o dono é gay. Vem uma tia empiriquitada, o seu caniche parece uma boutique ambulante a tresandar a perfuma de velha. Vem um labrego, ao seu lado, estará com certeza, um cãozinho de orelhas cortadas, rabo traçado e com uma coleira com o emblema do Benfica.
Teoria seis: Há gente que só vai ao cinema comer pipocas, e ainda por cima com a boca aberta.
Eu decididamente não entendo. Não percebo e se calhar nunca vou perceber. Já assisti a vários filmes, nunca vou ali, comprar umas pipocazinhas. Nem quando vou ver um blockbuster. Nenhum amigo, que assiste a um filme comigo, tem fome de pipocas. Isso mesmo. Fome de Pipocas. Mas quando vou a um centro comercial, chego à sala de cinema, sento-me, e lá vem um filho da puta de um estafermo, com a namorada, e um balde de pipocas. Não, não é um balde, mas uma saca, de 12 quilos. O gajo vem, e senta-se mesmo ao lado. O filme começa. Ele começa a jogar as pipocas na boca e amassa, com a boca aberta. Srec, srec, srec. O sacana, não vai ao cinema para ver um bom filme, mas para saciar uma tara íntima de comer pipocas no escuro, com o raio da boca aberta, coisa proibida em casa, provavelmente. Eu detesto esta teoria, mas que é verdade, lá isso é. Nunca vos aconteceu?
Outra teoria: No casamento, o padre só fala em traição.
Já não sei bem qual é a formação actual dos padres portugueses católicos, mas eu, que já frequentei uma igreja, onde eram realizados muitos casamentos, posso dizer – o padre tem uma complexa e punitiva tara pelo tema da traição – na cerimónia de casamento, os padres tem a mania que nós não paramos de nos comer uns aos outros. Pode ser verdade, mas ele precisa dizer isso, justamente na hora em que pergunta se um tipo vai ser fiel, na doença e na pobreza, na tristeza e na angústia? Se isto não é patológico, então o que é?
Teoria oito e conspirativa: O Humor afinal tem ideologia, e um dia que uma boneca insuflável deixe de ter prazer, é porque lhe faltou o ar.
Do jeito em que as coisas vão, um dia destes ainda emigro para a República de Camarões, e farei uma tenaz campanha pelas Lagostas. Sim, pelas lagostas. Que sejam elas as eleitas, caprichadamente cozinhadas em água salgada e bem quentinha, para que possam assim, ganhar cor, dando assim início a uma radical e prazeirenta metamorfose gastronómica, para serem degustadas junto ao mar, em noites de lua cheia, e comidas ao som de Vangelis, em perfeita simbiose com certas espécies de moluscos, caminhando na direcção do gosto dos mais exigentes adeptos de sumptuosas orgias mariscais. Sim, porque há quem pense que um bacalhau vem directamente do mar da Noruega em forma de triângulo.
Tenho mais 45 teorias, já devidamente anotadas e comentadas, encontrando-se já plasmadas num caderninho, já um tanto ou quanto manchado, de um vinho discreto, proveniente de uvas de castas tintas tradicionais do Douro – Tinta Roriz, Touriga Franca e Tinta Barroca. Ficam para depois…
Agora, vou mas é ler um conto de La Fontaine.

Moral da (desta) Crónica: A crónica é uma verdadeira inconstância. Em teoria, sabemos o que poderá ser, o que não pode ser, e o que poderia vir a ser realmente.

Luís Pereira


Colaboradores:

Ilustração: Pedro Solá
Crónica: Luís Pereira
Chegadas: Aurora Ribeiro
Gatafunhos: Tomás Silva
Cinema: Fausto André
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia e Pedro Solá
Literatura: Ilídia Quadrado
Ciência e Ambiente: Cristina Carvalhinho, Dina Dowling e Filipe Moura Porteiro
Lacunas: Fernando Menezes


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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Edição nº19


Encontros de Porto Pim 09

Os Encontros de Porto Pim têm vindo gradualmente a tornar-se uma referência a nível cultural e ambiental na Ilha do Faial.

Esta iniciativa surgiu de uma parceria entre a Direção Regional do Ambiente e a Direção Regional da Cultura aquando da abertura do Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim com vista a divulgar e dinamizar este espaço. Assim, através da realização de diversos eventos ligados à arte, à ciência e à sensibilização ambiental, deu-se uma nova vida a uma das mais belas zonas da ilha do Faial.

A VII edição dos Encontros de Porto Pim teve inicio no dia 3 de Junho com a inauguração da exposição dos trabalhos do Projecto Maresias que contou com a presença do contador de histórias Filipe Lopes. Este projecto foi uma iniciativa da CMH que, em colaboração com o OMA e com a Ecoteca, visou a realização de acções de sensibilização ambiental junto das Escolas Básicas da ilha do Faial. Às escolas foi-lhes propôsta uma visita ao Museu da Fábrica da Baleia e a realização de trabalhos relacionados com a temática do mar e da baleação. O resultado destes trabalhos está exposto até dia 27 de Junho na sala do CIMV3000 no Centro do Mar.

Nesse mesmo dia à noite foi também inaugurada a exposição de fotografia 30 Imagens para Neruda de Roberto Santandreu. Durante a inauguração da exposição teve lugar um recital de poesia onde foram declamados poemas do poeta Chileno por Pedro Solá e Maria do Céu Brito. Esta exposição apresenta 30 fotografias de grande formato a preto e branco que decoram as paredes da Sala dos Óleos do Centro do Mar e estará patente ao público até dia 27 de Junho. (mais informações sobre esta exposição no artigo de Rui Pereira)

Entretanto teve ainda lugar um debate sobre o Mar e as Pescas nos Açores e a Mini Maratona do Ambiente, entre o Varadouro e os Capelinhos, que contou com várias dezenas de participantes.

O Cinema está também presente nos Encontros de Porto Pim ’09, com 3 dias dedicados ao Cine’Eco - Festival de Cinema e Vídeo da Serra da Estrela, Seia. Em exibição estarão 4 documentários premiados no CineEco 2008, numa mostra do que melhor se faz no campo do cinema e do audiovisual de temática ambiental. Nos dias 10, 11 e 12 de Junho, decorrerão às 21:00 as sessões com entrada gratuita, no espaço do Museu da Fábrica da Baleia de Porto Pim, no Monte da Guia. No dia 12 será projectado também um documentário dedicado ao publico juvenil, com sessões às 10 e às 14 horas.

Hoje – Quinta Feira dia 11, tem lugar no Bar do Teatro pelas 21:00 a tertulia “O Mar na Poesia de Ruy Belo”.

Dia 19 de Maio a música e a dança animam a Baía de Porto Pim. Às 19 horas terá inicio uma performance de Ballet na praia realizada pelos alunos do Conservatório da Horta, junto ao Centro do Mar. Mais tarde, pelas 23:00, a festa está a cargo dos Bandarra que garantem animação pela noite dentro na rampa da Fábrica da Baleia.

Dia 20 pelas 21:30 as portas do Museu da Fábrica da Baleia serão abertas a diversas artes performativas e plásticas. O espaço que em tempos foi o local de trabalho de dezenas de homens e onde o barulho das máquinas era insurdecedor, é o mesmo que agora, e com as mesmas máquinas, diversos artistas irão partilharar e onde se irão inspirar para criar e improvisar em conjunto.

Entre os dias 22 e 25 decorrerá um workshop de pintura “Pintar o Céu” com Margarida Alfacinha.

No dia 27, a sessão de encerramento dos Encontros de Porto Pim ’09 terá lugar no Centro do Mar e contará com uma actuação da Filarmónica Unanime Praiense.


Pedro Monteiro


Colaboradores:

Ilustração: Florimundo Soares
Crónica: Pedro Monteiro
Chegadas: Aurora Ribeiro
Gatafunhos: Tomás Silva
Teatro: Anabela Morais e Grupo de Teatro "O Dragoeiro"
Música: Daniel
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Florimundo Soares, Margarida Alfacinha e Rui A. Pereira
Literatura: Ilídia Quadrado
Ambiente: Dina Dowling


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sexta-feira, 29 de maio de 2009

FAZENDOBarulho #2



No seguimento da primeira ediçãodo FAZENDObarulho a Associação Cultural Fazendo planeou um novo evento com um sentido de continuidade em relação à estreia mas aumentando a aposta ao nível da programação. Uma vez que o segundo número desta rúbrica terá lugar na véspera do feriado do dia de Portugal e das Comunidades pretendeu-se criar uma festa de celebração das culturas da lusofonia, mais concretamente das ligadas ao continente Africano.
Assim o FAZENDObarulho#2 abrirá com um concerto de música cabo-verdiana por Alexandre Delgado, músico residente no Faial que no ano passado lançou o seu disco de estreia “M’ninha de S. Nicolau”. Este disco contou com a produção de Humberto Ramos, director musical ligado a artistas como Cesária Évora, Dany Silva, Tito Silva ou Maria Alice. Alexandre Delgado será acompahando por Zeca Sousa, Chico Andrade e Vìtor Lopes. A continuação da noite ficará a cargo de João Gomes, músico dos Cool Hipnoise e Spaceboys, com um DJ set que deverá passar por diversos espectros da música negra (afro-beat, funk, semba, kuduru, reaggae). No vídeo vai-se contar com uma batalha em tempo real entre os VJ’s Rui Branco e Aurora Ribeiro.

9 de Junho

23h00 Alexandre Delgado.concerto 

24h00 João Gomes (Cool Hipnoise).dj set 

           VJ’S Rui Branco vs. IlhasCook


Para mais informações clique aqui ou em baixo:


Edição nº18



O que é ser Faialense?

Pergunto-me. Eu, Fausto, filho de picarotos nascido no Porto, infância e juventude vividas no Faial e que agora, passados alguns anos, regresso.

Ser algo é sê-lo dos pés à cabeça. Os pés caminham sobre um chão, e a cabeça sob os ideais que gerem o espírito humano – a sua cultura.
Ser faialense é, em primeiro lugar, habitar um pedaço de pedra que brotou violentamente do mar hà 800 mil anos e que durante 200 mil anos foi forjado pela força ardente do centro da Terra. Esta é a força primordial. E ela está hoje aqui, e quando quer, chega e altera tudo. Da pedra veio a terra, e da terra as plantas e os animais. Depois são 500 anos de povoamento pelo homem. São séculos de sangue do povo lusitano sobre o chão desta ilha. E este sangue está aqui nas veias e comportamentos dos homens e mulheres que a habitam.

À procura de casa. Tanto dinheiro me pedem por um sítio onde viver. Pergunto-me: como sobrevivem as famílas quando todos os bens são tão caros e o que recebem é tão pouco. A ganância descontrolada faz décadas que passou a gerir as relações sociais. Há sítios - aqui bem perto - em que ainda dizem: se fores honesto, um arranja-te umas batatas, o outro uns ovos ou um pão de milho e vivendo e dançando aqui connosco não irás morrer à fome. Mas está a desaparecer este espírito de vida e verdadeira bondade.

Esta é uma terra fértil onde nasce tudo o que se semeia. Era uma terra onde se cultivava tudo o que era preciso para comer muito e bem. Mas a ilha foi convertida em pasto para vacas e a comida industrial de má qualidade substituiu a produção local. Agora o Faial está a ser convertido em pasto para turistas imaginários.
A Horta – que nome tão significativo – uma cidade de sonho, verdadeiramente de sonho, mas que vai sendo lentamente invadida pelo betão até ao golpe mais rude que já a espera – o tal porto que já fez chorar os habitantes que nada fizeram da ilha Terceira e da ilha de São Miguel. Ilusões vendidas em prol do dinheiro perante um povo sem reacção que ainda vai acreditando na lenga-lenga do desenvolvimento e do turismo salvador. Quando ironicamente quem nos vem visitar quer escapar precisamente aos portos de betão e metal, procurando a avenida mais bonita do mundo com vista para a imponente montanha e a praia da Conceição para nadar e ver o Pico, e não o paquete que lhes polui a água. Quer fugir às centenas de parques eólicos do seu país, apenas para esbarrar com um em Pedro Miguel (e em breve, se nada fôr feito, mais um para o lado Norte). Quer fugir também ao barulho das máquinas de aspirar os passeios da cidade onde se despeja herbicida e lixo. Querem ver fontanários antigos com água de fonte, querem estar longe de fontes de radiação em massa como antenas de telemóveis e sistemas wireless (em Almoxarife encontramos um num parque infantil). Querem ver a Natureza em bruto, na sua beleza e riqueza em vez de centros de interpretação, centros de tédio informático e aquários virtuais. Eles não querem isto durante um mês e nós queremos durante todo o ano? Para sempre? Estes visitantes, a quem foi vendida uma imagem de harmonia natural, não irão voltar e os faialenses irão ficar com a sua bela cidade cada vez mais cinzenta, artificial e triste.

A nossa cultura é a nossa terra. Os nossos instrumentos, a nossa chuva que nos dá água, a nossa chamarrita que nos une em roda, o nosso pão, o nosso milho, os nossos chapéus de palha, as nossas rendas e bordados, as nossas almarras, a nossa calma, o nosso silêncio, os nossos animais, as nossas terras, a nossa amizade, a nossa cultura.
“O verbo «cólere», de que deriva «cultura», exprime a idéia de «amanhar, cuidar, revolver» a terra, fertilizando-a e semeando a boa semente para que produza mais e melhor. Reporta-se pois, originariamente, ao trabalho agrícola, compreendendo tanto o cultivo do solo, quanto o cultivo dos vegetais no solo. Com o correr do tempo, o verbo «cólere», veio adquirindo outros sentidos. Às vezes significa «habitar», como a dizer que aquele que trata a terra é o que nela habita. O homem, utilizando-se dos recursos das florestas, constrói sua moradia para nela habitar. Outras vezes significa «venerar e honrar» os deuses e os amigos, equivale dizer, cultivar e dispensar especiais cuidados aos deuses para que sejam propícios no cultivo da terra; e aos amigos, os companheiros no mesmo labor. Mais tarde, sobretudo em Cícero, recebeu o sentido figurado do «trato e aprimoramento do espírito». Neste caso, o verbo «cólere» vinha sempre acompanhado do termo «animus»: cultura animi. O homem que cultiva a natureza, cultiva também a sua própria natureza. Era assim sinónimo de educação, no sentido de aprimoramento do espírito. ”

Viver no Faial e ser faialense ainda pode ser um sonho. Ou seja, a realidade de uma vida de alegria, de bem-estar, de força, de verde e de mar num pequeno paraíso da Terra.


Fausto Cardoso


Colaboradores:

Ilustração: Maria Inês Cunha
Crónica: Fausto Cardoso
Chegadas: Aurora Ribeiro
Gatafunhos: Tomás Silva
Teatro: Grupo de Teatro "Mensagem"
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia e Pedro Mota
Literatura: Ilídia Quadrado e Rita Braga
Ambiente: Dina Dowling


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quinta-feira, 14 de maio de 2009

FAZENDOtertúlia #2


Literatura e Jazz

No próximo dia 19, terça-feira, realizar-se-á a segunda tertúlia organizada pelo jornal Fazendo. Aproveita-se a passagem pela ilha do pintor/escritor Miguel Horta que virá apresentar os seus livros e manter um conversa informal com quem quiser passar pela C.A.S.A. a partir das 21h00. De seguida as lides ficarão a cargo da guitarra de Zeca Sousa e do seu trio de Jazz com Pedro Gaspar (contrabaixo) e Nélson Raposo (bateria).
Miguel Horta tem formação em pintura e é essencialmente no domínio das artes plásticas que mais trabalhos apresenta, sendo o seu percurso expositivo pontuado por presenças regulares em Portugal e na Europa. Na mediação cultural encontrou uma excelente ferramenta para a comunicação de ideias tendo já corrido o país de lés a lés com projectos na área da Promoção do Livro e da Leitura e da Educação pela Arte. Como escritor é responsável por duas publicações na área da literatura infanto-juvenil: Pinok e Baleote e Dacoli e Dacolá. O primeiro tem lugar no arquipélago de Cabo Verde e trata da história de um rapaz crioulo com fama de mentiroso, o segundo é composto por sete histórias sobre vários temas sendo todas passadas em Portugal. Estes livros, dos quais o autor é também ilustrador, serão o ponto de partida para a conversa de dia 19.
Uma vez que nessa noite não haverá cinema convidamos todos a deslocarem-se à C.A.S.A. e a participar neste serão que se quer agradável e descontraído.

A Direcção