terça-feira, 17 de maio de 2011

Edição nº 60



Crónica
A adesão aos princípios que assumem a necessidade e responsabilidade de contribuir para uma resposta colectiva às necessidades das pessoas é uma prática que, em teoria, poucos admitem não acolher ou respeitar. Mas, da teoria à prática “vai um tiro de canhão”.

A forma como o tema “Estado social” é tratado no nosso país, traz consigo uma carga avassaladora de cinismo. Uns juram pela sua mãezinha que é a sua profissão de fé, enquanto, na prática, o vão destruindo. Outros não são contra, mas quanto menos melhor. É a velha máxima da diferença entre “dar na cabeça” ou “na cabeça dar”. Em boa verdade, o conceito de Estado social, ou providência, é a negação da forma organizativa duma sociedade liberal. Defender o Estado social com políticas liberais é “querer estar bem com Deus e com o Diabo”.

O Estado social assenta em princípios que dão uma resposta colectiva às necessidades de cada uma das pessoas. O sistema liberal professa o individualismo em detrimento da solidariedade. O Estado social tem todo o seu enfoque nas pessoas, no seu direito à saúde, à educação, ao trabalho. O sistema liberal alimenta--se do economicismo, na acumulação do capital, na diferença pelo poder do dinheiro.

O conceito europeu de olhar para os que nada têm como uma obrigação do Estado e não apenas como uma mão caridosa estendida pelas organizações bem-intencionadas da sociedade civil pressupõe um aparelho de Estado bem organizado e uma economia saudável. Nos tempos que correm, nenhuma destas premissas é válida, não só em Portugal, mas na generalidade dos países europeus.

Surge então a necessidade de mudança. E, novamente, todos falam do mesmo, mas sem explicar bem o que querem mudar. Aplica-se, então a célebre frase: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

Porém, o que permanece igual é o caminho trilhado no sentido da progressiva destruição do Estado social, e o que muda é o aumento das restrições e dos cortes orçamentais na saúde, no ensino e na protecção social.

Todo um princípio económico básico, essencial à existência do Estado social está pervertido. O sistema financeiro deverá ser um meio de apoio ao bom funcionamento da economia, para que esta possa estar ao serviço do bem-estar das pessoas. O sistema liberal “espreme” as pessoas para que a economia esteja ao serviço da especulação financeira.

Os teóricos liberais defendem a todo o custo o crescimento económico (leia- -se: concentração do poder económico). Baseiam-se nas privatizações e não hesitam em recorrer à entrega, a um par de mãos, aquilo que é de todas as pessoas, sem qualquer excepção, incluindo a privatização da saúde, do ensino, e de bens essenciais como a água, para que quem tenha poder financeiro possa pagar e, assim, com as migalhas restantes, providenciar cuidados de saúde mínimos e o ensino indispensável aos pobrezinhos (“vamos brincar à caridadezinha”). Defendem que saúde e ensino para todos é uma utopia. “O Estado não tem receitas que possam suportar essas despesas!”. Esquecem que melhor para alguns e pior para outros é discriminação e que a opulência, desses alguns, é a carência destes outros.

É uma falsa questão a falta de recursos do Estado para garantir a diminuição das disparidades sociais causadas pela sociedade capitalista. É, sim, uma questão de prioridades e de diversificação das receitas. O Estado não pode ser alimentado exclusivamente pela contribuição dos rendimentos de trabalho. Será aceitável a existência de fortunas acumuladas através de mais-valias imobiliárias e transacções bolsistas que não são tocadas pelo fisco? Tudo - o presente e o futuro do Estado social - é uma opção política.

Com uma forte tributação sobre os dividendos não reinvestidos, distribuídos aos accionistas do sistema financeiro, e não “esquecendo” os paraísos fiscais, para onde “voam” milhões de euros, podem arrecadar- -se recursos que, aliados à erradicação dos gastos despropositados e sem controlo, dotam o Estado dos recursos necessários.

É criminoso para o Estado social que, a par da subordinação ao sistema financeiro, se gaste tantos milhões com a compra de dois submarinos, considerados “um luxo supérfluo” pelos “patrões” da NATO.
Há uma grande ameaça sobre o Estado social, que é incentivada pelos privados. Inculca-se na Opinião Pública a ideia de que os serviços privados de Saúde são mais eficientes e, em simultâneo, desinveste-se no sector público. Caminhamos para o sistema que desvaloriza os cuidados de Saúde básicos aos cidadãos com menos recursos, sistema que outros países começam, finalmente, a dar a ideia de querer abandonar. Queremos retomar o que outros abandonam?

Estamos a um passo de já não se poder considerar o que existe como Estado social, e, por isso, é urgente que se mudem as prioridades, porque o fim do Estado social europeu, como quer a actual chanceler alemã, Angela Merkel, seria o colapso da União Europeia.


Mário Moniz


Colaboradores:

Capa: Eugénia Rufino
Arquitectura e Artes Plásticas: Paulo Gabriel
Cinema e Teatro: Tiago Vouga e Victor Rui Dores
Literatura: Eduíno de Jesus
Ciência: PNF e Sílvia Lino
Gatafunhos: Tomás Melo


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terça-feira, 3 de maio de 2011

Edição nº59



Crónica

Os Encontros Filosóficos, organizados pelo grupo de filosofia da Escola Secundária Manuel de Arriaga, surgiram há dezoito anos, com o objectivo de fazer os alunos do 12º ano questionarem-se acerca do mundo que os rodeia e que os recebe depois de saírem da escola. Com o passar do tempo, e com o surgimento da disciplina de Área de Projecto (AP), este passou a ser um espaço de apresentação dos trabalhos práticos desenvolvidos ao longo do ano lectivo, contando ainda com uma série de outras acções que se desenrolam paralelamente, entre workshops, palestras e debates, que pretendem envolver toda a comunidade na reflexão filosófica e na construção da sociedade, não apenas as pessoas directamente relacionadas com o meio escolar.

Este ano subordinam-se ao tema “Educar pelas Artes”, pelo que teremos ao longo de uma semana actividades relacionadas com cinema, teatro, literatura, fotografia, desenho, música e dança.

No que toca a AP, cujas apresentações serão feitas entre os dias 2 e 5, este ano vamos assistir a trinta trabalhos, divididos pelas quatro turmas do 12º ano e somando a participação de cerca de uma centena de alunos, trabalhando individualmente ou em grupos.

Sobre os trabalhos podemos mencionar que contam com os mais variados temas. Enquanto alguns se questionaram sobre o que fazer “depois do 12º ano?”, outros preferiram debater “os problemas da adolescência”; enquanto uns reflectem se afinal “aqui há crise?” ou não, outros optaram pela “cerveja” ou pela “Atlântida”.

Olhando o mundo que (n)os rodeia surgiram trabalhos de âmbito social, como “um invisual na sociedade”, “a interacção das crianças com Síndrome de Asperger”, “os deficientes motores e a sua qualidade de vida”, ou “peso certo em quilos” e “viver com a Diabetes”. Por alguns dos alunos de Ciências foram elaboradas investigações de carácter mais técnico, como sejam a “linguagem corporal e as microexpressões faciais”, “genética: transmissão de características e mutações?”, “clonagem de plantas” e “holografia e vanguarda tecnológica”, com especial destaque para este último por contar com a presença do Professor Pedro Pombo, da Universidade de Aveiro, que fará uma palestra sobre o tema.

No âmbito da ecologia iremos assistir à “criação de uma estufa e prática de agricultura biológica”, assim como a três projectos relacionados com as “energias renováveis”, sendo um deles sobre embarcações movidas a estas energias e outro acerca de “o automóvel e o biodiesel”. Recordando mais uma vez o tema deste ano, quatro apresentações debruçar-se-ão sobre a Música, abrangendo as temáticas da sua “influência no Homem” e “na Educação e na Saúde”, dos “Blues” e de “qual a sua realidade” no Faial; haverá ainda um trabalho sobre o “cinema”, um sobre a “publicidade” e o “renascer da cor”, um desfile de moda. Tendo em conta a nossa realidade ímpar e a importância de termos quem nos visite, o “turismo no Faial” e “uma ilha bestial por um preço especial” serão outros dois trabalhos apresentados. E porque o património e o passado também são importantes teremos uma pesquisa sobre “as térmitas” e outra sobre “história e urbanismo” na nossa cidade.

Qualquer um deles pretende incutir nos estudantes um espírito crítico para com o mundo à sua volta, para que cada um possa ser um cidadão atento e consciente, possuidor de valores que permitam desenvolver a nossa sociedade e fazer o nosso país sair da letargia e da crise em que se encontra.

Esperemos também poder contar com a maior audiência possível e com a presença de todos quantos queiram assistir a este evento, pois se a escola tem o dever de formar a comunidade, também a comunidade deve ter um papel activo na escola, e se a escola tem o dever de preparar os alunos para a sua entrada na sociedade, também a sociedade deve estar apta a recebê-los.


Tiago Silva - Aluno na ESMA

Colaboradores:

Capa: Pedro Escobar
Arquitectura e Artes Plásticas: Lia Goulart
Texto sobre capa: André N. de Melo
Ciência: PNF
Gatafunhos: Tomás Melo

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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Edição nº58




Entrevista

Carlos Riley fala ao Fazendo sobre o Colóquio “Os Açores, a I Guerra Mundial e a República Portuguesa no Contexto Internacional” que decorreu no mês de Abril em três cidades açorianas

Porque é que este é um Colóquio Internacional?
O que lhe dá o epíteto de internacional é o facto de ter tido a participação de conferencistas estrangeiros. O colóquio é ainda internacional porque entendemos que uma das iniciativas produzidas pela Direcção Regional da Cultura no âmbito do Centenário da República devia de alguma forma procurar sublinhar qual tinha sido a dimensão internacional do papel do Arquipélago dos Açores no âmbito da Primeira República, ou seja, o que é que os Açores teriam acrescentado à política externa portuguesa da época, já que é por ocasião da I Grande Guerra que se dá a emergência daquilo que é justamente depois considerado a importância estratégica dos Açores no séc. XX. Quando se fala dos Açores e de Estratégia a maior parte das pessoas têm quase, desculpe-me a expressão, uma espécie de reflexo de Pavlov, é um reflexo imediato: fala-se logo da Base das Lages e da II Guerra Mundial. Ora de facto aquilo que é a pedra de toque, o que marca o início do que virá a ser o papel que os Açores desempenham depois por via da Base das Lages, acontece justamente durante a I Guerra Mundial.
A partir de finais de 1917/18, há a dita instalação de uma base anglo-americana que só é desfeita e desmantelada em inícios de 1919. Aquele conceito das chamadas facilidades militares que são concedidas pelo Governo da República Portuguesa aos americanos nos Açores, não é inaugurado nem começa na II Guerra Mundial, mas sim na I Guerra. Em virtude deste acontecimento e deste significado estratégico, achámos que tinha quase como um efeito pedagógico celebrarmos ou promovermos o colóquio. Chamámos-lhe internacional porque procurávamos vincar este papel dos Açores na política externa portuguesa da época. E portanto o colóquio é internacional não só pelo facto de ter conferencistas estrangeiros como por causa do facto de os Açores serem a grande carta de trunfo que o Governo da República Portuguesa tem no âmbito das negociações internacionais. Os Açores e também as Colónias, mas são sobretudo os Açores que fazem com que Portugal tenha uma relevância estratégica importante na política externa dessa altura.

Estes colóquios foram planeados para algum tipo de público específico?
Não havia nenhum segmento de público em particular. O Colóquio funciona em duas dimensões que eu já agora gostaria de apresentar: uma é o momento das conferências e das sessões do Colóquio propriamente ditas. São sempre abertas ao público, aparece quem quer e obviamente não cabe nunca aos organizadores e aos promotores da iniciativa, estarem, passe a expressão, praticamente a encostarem uma pistola às cabeças das pessoas para irem assistir. Mas por outro lado há um segundo momento que eu queria aqui vincar que é o seguinte: o Colóquio vai ser publicado em actas e portanto, independentemente da maior ou menor adesão do público em termos de assistência às sessões do colóquio (obviamente ficaríamos sempre contentíssimos se os auditórios tivessem enchentes), todo o contributo dos conferencistas e doutros participantes com comunicações vai ficar fixado e cristalizado num livro em papel. Dadas as características do colóquio, haverá gente que possa estar mais sensível a este tipo de coisas que aqui se fala, que serão, enfim, os estudantes universitários, os estudantes dos últimos anos do liceu, o público adulto e culto, em particular. Mas penso que a maneira mais correcta de responder à sua pergunta é com uma redundância: o público-alvo deste colóquio era o público.

O Colóquio aconteceu em três cidades açorianas. Em cada uma delas houve uma sessão de conferências, porquê a escolha de um painel diferente para cada ilha?
Como pode ver pelo programa do colóquio, cada um dos painéis abordava temas diferentes. O de Angra do Heroísmo centrou-se nas questões ligadas à I Guerra Mundial, o de Ponta Delgada, relacionou-se mais com o Regionalismo e com questões mais internas da sociedade açoriana: o que é que eram os Açores e a sociedade açoriana no período da Primeira República (de 1910 a 1926). E sobretudo o fenómeno político, cultural e social, da emergência do movimento regionalista, que se dá nos anos 20 e que tem uma expressão muito vincada em termos ideológicos e das suas manifestações em S. Miguel (embora também a tivesse noutras ilhas). Portanto pareceu-nos que, por uma questão de casting, este tema seria uma sessão mais indicada para Ponta Delgada. Por outro lado, tudo o que tivesse a ver com uma dimensão mais internacional, com o tema dos Açores no contexto da política externa portuguesa, faria mais sentido fazer aqui na Horta, pensando no ambiente muito cosmopolita, muito internacional que teve a ilha do Faial e a cidade da Horta no período da Primeira República em virtude da instalação dos Cabos Submarinos a que depois se sucede, embora já num período posterior, a amaragem dos Clippers nos finais da década de 30 e etc. A opção de se ter optado por uma estrutura tripolar advém da preocupação descentralizadora de procurar levar este colóquio ao maior número possível de pessoas.

A acompanhar a sessão do Colóquio na cidade da Horta, é inaugurada uma exposição intitulada Açores 1917/1918: Crónica de um ano americano. A ilha do Faial teve alguma relevância no decorrer dos acontecimentos que marcam esse ano?
Essa exposição é um encore, já tinha sido inaugurada aqui na Horta em Novembro de 2008. É uma iniciativa da Fundação Luso-Americana para o desenvolvimento e na altura foi feita na sequência de uma outra que a mesma Fundação promoveu no verão de 2008 em Ponta Delgada (o 1º Fórum Açoriano de Franklin Delano Roosevelt).
A exposição não só procura cobrir a passagem de Roosevelt aqui pelos Açores, numa viagem que ele fez a caminho da Europa no Verão de 1918, como sobretudo procura evidenciar aquilo que lhe falei há pouco e que era a instalação da base naval americana em Ponta Delgada. Dentro dessa exposição há um painel que fala do Faial em particular, porque embora a base naval não se tivesse instalado aqui, o primeiro ponto onde Roosevelt desembarca nos Açores é precisamente o porto da Horta e faz, a expressão é minha, um “roteiro sentimental” aqui pelas antigas casas dos Dabney: a Bagatelle, os Cedars...
Os Delano’s, a sua família materna, eram uma família americana estabelecida em New Bedford, que era um importante porto baleeiro. E Roosevelt, na sua infância, ia sempre passar as férias grandes do verão a casa dos avós maternos em New Bedford e portanto ele cresce também num ambiente de um porto baleeiro. É curioso que ele quando passa depois aqui pela Horta escreve uma carta à sua mulher, Eleanor Roosevelt, em que se confessa encantado. Ele diz “isto é muito curioso, é extraordinário, está a trazer-me recordações, parece uma cidade baleeira na América do norte”. E ele também tinha a noção de quem eram os Dabney, porque os Dabney são uma família do patriciado da zona da Nova Inglaterra, e portanto analisando o texto da carta, chegamos à conclusão que de alguma forma, ao visitar aqui a Horta, ele encontra coisas com as quais já estava familiarizado.

Qual é o balanço final que faz destas três sessões?
Não foi possível assistir às sessões de trabalho de ontem, por causa das condições meteorológicas, mas assisti às outras sessões e faço um balanço extremamente positivo. As comunicações e as participações foram de grande qualidade e sobretudo trouxeram um contributo historiograficamente original em relação a um período da história sobre a qual pouco se sabe. O primeiro quartel do Séc. XX; estes primeiros 25 anos, não têm sido muito estudados. E muito menos tem havido um contributo historiográfico estrangeiro. Se eu passar em revista todas as comunicações nas diversas secções e nas diversas sessões de trabalho do Colóquio acho francamente que no final e sobretudo quando o Colóquio tiver as suas actas publicadas em livro, o saldo é bastante positivo. Passe o auto-elogio à organização e à Direcção Regional da Cultura que teve a ideia de promover esta iniciativa. De facto estamos todos de parabéns porque podemos dizer com a consciência perfeitamente tranquila que contribuímos para acrescentar mais conhecimento ao estudo do que foram os açores no inicio do Séc. XX.

Colaboradores:


Capa: Gaspar Pedro
Música: Miguel Machete
Arquitectura e Artes Plásticas: Joana Soares
Literatura: Lélia Nunes
Entrevista: Maria do Céu Brito
Ciência: PNF
Gatafunhos: Tomás Melo

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Edição nº 57





Crónica

Encontros Filosóficos - um projecto de natureza interdisciplinar

Os Encontros Filosóficos são um projecto de natureza interdisciplinar. Nasceram na sequência do trabalho de reflexão/ crítica de problemas do mundo contemporâneo, realizadas pelos alunos de Filosofia. Foi há dezoito anos! E isto significa que os Encontros Filosóficos atingiram a maioridade. E assim sendo, adquiriram pelo menos o “direito” a serem reconhecidos como projecto pedagógico que vingou, apesar das sucessivas alterações de programas, dos currículos, da organização da escola.

Recordo que há exactamente dezoito anos, todos os alunos de Filosofia do 12º ano apresentaram os seus trabalhos na Sociedade “Amor da Pátria”. Sob o olhar atento, compreensivo e disponível da professora Isabel Renaud, levantavam problemas, faziam formulações teóricas, questionavam o mundo, expunham-se, construíam a aprendizagem de forma activa e responsável. Muito tempo antes de se anunciar nos curricula a “Área de Projecto”.

Ao longo dos dezoito anos, realizaram-se encontros, debates e actividades didáctico-pedagógicas de grande mérito. Relembro as Oficinas de escrita criativa com o escritor José Fanha, e José Luis Peixoto, os encontros com os professores Adriano Moreira, Carlos Fiolhais, Galopim de Carvalho, Carvalho Rodrigues, Alexandre Quintanilha, entre outros. As reflexões desenvolvidas por Daniel Serrão, Álvaro Laborinho Lúcio, Mário Soares, o professor Carlos Reis. Passaram ainda pela cidade da Horta poetas e artistas, como João Cutileiro, que desenvolveu com os alunos de Artes, durante uma semana, um workshop de escultura.

No âmbito da formação de professores, recordo o trabalho de hermenêutica realizado pelo José Trindade dos Santos, o workshop de Filosofia para Crianças orientado por docentes da Universidade Católica, os sucessivos encontros com a professora Gabriela Castro, da Universidade dos Açores.

Em 2011 surgem novos e grandes desafios. Professores da Universidade de Santiago de Compostela e Valência deslocar-se-ão à Horta para trabalhar com alunos, professores, empresários e a comunidade em geral (projecto decorrente das parcerias com a CCIH e Associação de Agricultores da Horta). Realizar-se-ão ainda oficinas de escrita criativa e dramaturgia, música e ilustração. Realizar-se-á um workshop de Teatro do Oprimido (em parceria com o Teatro de Giz), um workshop de cinema e fotografia (em parceria com o Jornal Fazendo) São desafios formativos, intelectuais e comunicacionais únicos!
O projecto Encontros Filosóficos, organizado pela Escola Secundária Manuel de Arriaga é um projecto aberto, comum e quer-se participado por toda a comunidade de Pais, Encarregados de Educação, professores e Cidadãos em geral! Inscreva-se nas acções! Participe nos Fóruns de Discussão! Torne este projecto Um ESPAÇO COMUM DE TRABALHO E DE INOVAÇÃO!

Maria do Céu Brito

Colaboradores:


Capa: Luís Silva
Entrevistas: Fernando Nunes
Arquitectura e Artes Plásticas: Rita Braga
Literatura: Cátia Benedetti
Teatro: Tomás Motos, Victor Rui Dores
Ciência: RSS, José Nuno Pereira
Gatafunhos: Tomás Melo

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segunda-feira, 21 de março de 2011

Edição nº56





Crónica

Dia Mundial do Teatro

O Dia Mundial do Teatro é comemorado a 27 de Março. Uma das mais importantes manifestações desta comemoração é a difusão da mensagem escrita por uma personalidade de dimensão mundial, convidada pelo Instituto Internacional do Teatro, para partilhar as suas reflexões. Esta mensagem é traduzida em mais de vinte línguas e lida perante milhares de espectadores antes dos espectáculos de 27 de Março, nos teatros do mundo Inteiro.

Este ano a personalidade escolhida foi a africana Jessica Atwooki Kaahwa.

Nota Biográfica de Jessica Atwooki Kaahwa

Professora titular no Departamento de Música, Dança e Teatro da Universidade de Makerere, no Uganda. É doutorada em Teatro, História, Teoria e Crítica pela Universidade de Maryland, nos EUA.

Dramaturga, actriz e directora do teatro académico, escreveu mais de 15 peças de teatro, televisão e rádio.

Distingue-se pelo seu trabalho humanitário. Utiliza o teatro como meio de desenvolvimento humano e como força construtiva em zonas de conflito.

Esta personagem multilingue é acérrima defensora dos direitos humanos, da igualdade de género e da paz.

Mensagem do Dia Mundial do Teatro
O TEATRO AO SERVIÇO DA HUMANIDADE
por Jessica Atwooki Kaahwa

Este é o momento exacto para uma reflexão sobre o imenso potencial que o Teatro tem para mobilizar as comunidades e criar pontes entre as suas diferenças.

Já, alguma vez, imaginaram que o Teatro pode ser uma ferramenta poderosa para a reconciliação e para a paz mundial?

Enquanto as nações consomem enormes quantidades de dinheiro em missões de paz nas mais diversas áreas de conflitos violentos no mundo, dá-se pouca atenção ao Teatro como alternativa para a mediação e transformação de conflitos. Como podem todos os cidadãos da Terra alcançar a paz universal quando os instrumentos que se deveriam usar para tal são, aparentemente, usados para adquirir poderes externos e repressores?

O Teatro, subtilmente, permeia a alma do Homem dominado pelo medo e desconfiança, alterando a imagem que tem de si mesmo e abrindo um mundo de alternativas para o indivíduo e, por consequência, para a comunidade. Ele pode dar um sentido à realidade de hoje, evitando um futuro incerto.

O Teatro pode intervir de forma simples e directa na política. Ao ser incluído, o Teatro pode conter experiências capazes de transcender conceitos falsos e pré-concebidos.

Além disso, o Teatro é um meio, comprovado, para defender e apresentar ideias que sustentamos colectivamente e que, por elas, teremos de lutar quando são violadas.
Na previsão de um futuro de paz, deveremos começar por usar meios pacíficos na procura de nos compreendermos melhor, de nos respeitarmos e de reconhecer as contribuições de cada ser humano no processo do caminho da paz. O Teatro é uma linguagem universal, através da qual podemos usar mensagens de paz e de reconciliação.

Com o envolvimento activo de todos os participantes, o Teatro pode fazer com que muitas consciências reconstruam os seus pré-conceitos e, desta forma, dê ao indivíduo a oportunidade de renascer para fazer escolhas baseadas no conhecimento e nas realidades redescobertas.

Para que o Teatro prospere entre as outras formas de arte, deveremos dar um passo firme no futuro, incorporando-o na vida quotidiana, através da abordagem de questões prementes de conflito e de paz.

Na procura da transformação social e na reforma das comunidades, o Teatro já se manifesta em zonas devastadas pela guerra, entre comunidades que sofrem com a pobreza ou com a doença crónica.

Existe um número crescente de casos de sucesso onde o Teatro conseguiu mobilizar públicos para promover a consciencialização no apoio às vítimas de traumas pós-guerra.

Faz sentido existirem plataformas culturais, como o Instituto Internacional de Teatro, que visam consolidar a paz e a amizade entre as nações.

Conhecendo o poder que o Teatro tem é, então, uma farsa manter o silêncio em tempos como este e deixar que sejam “guardiães” da paz no nosso mundo os que empunham armas e lançam bombas.

Como podem os instrumentos de alienação serem, ao mesmo tempo instrumentos de paz e reconciliação?
Exorto-vos, neste Dia Mundial do Teatro, a pensar nesta perspectiva e a divulgar o Teatro, como uma ferramenta universal de diálogo, para a transformação social e para a reforma das comunidades.

Enquanto as Nações Unidas gastam somas colossais em missões de paz com o uso de armas por todo o mundo, o Teatro é uma alternativa espontânea e humana, menos dispendiosa e muito mais potente.

Não será a única forma de conseguir a paz, mas o Teatro, certamente, deverá ser utilizado como uma ferramenta eficaz nas missões de paz.

Anabela Morais

Colaboradores:


Capa: http://cidadepintada.blogspot.com
Arquitectura e Artes Plásticas: Paula Bacelar
Literatura: Tomás Melo
Teatro: Miguel Machete
Ciência: Fernando Nunes, Carla Veríssimo, PNF
Gatafunhos: Tomás Melo

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quarta-feira, 16 de março de 2011

ÚLTIMA CHAMADA


PROCURA-SE
Banksy no Faial

Não sendo muito verosímil que o londrino Banksy, algures entre uma exposição em LA e umas "tags" no muro na Faixa de Gaza, tenha passado pelo Faial para desenhar umas mulheres do Capote, aqui no Fazendo chegámos à elementar conclusão de que há um novo talento no vasto mundo da street-art faialense (vá, talvez não é assim tão vasto).
Desde que a excelente equipa de olheiros do Fazendo tomou conhecimento deste facto (num telejornal da RTP-Açores, vejam só a quantidade de tecnologia ao nosso dispor) que tentamos localizar o artista para lhe oferecer um faixa e um ramo de flores. Não conseguimos.
Mas tamanha perspicácia deve ser premiada e só por isso o Fazendo faz um fastidioso, fustigado e festivo apelo ao fugitivo (ou move, ou ratinho giro..)(e atenção também porque um apelo aliterado em "fsshhh" não é todos os dias que aparece) para que faça chegar um trabalho gráfico da sua autoria à nossa caixa de correio electrónica - vai.se.fazendo@gmail.com - que será magistralmente exibido na capa do Fazendo. (uma foto duma tag nova por exemplo era muito giro, mas também pode ser uma pintura naturalista). No mesmo mail deve também vir uma prova irrefutável da autenticidade da peça, que será exaustivamente analisada pela nossa equipa forense (que é a mesma dos olheiros mas com mais equipamento).
É favor reencaminhar esta mensagem a todos os vossos contactos na melhor tentativa de chegar ao dito cujo.

Fazendus

P.S. Garantimos toda a discrição relativamente ao endereço electrónico do remetente mas, pelo sim pelo não, aconselhamos a que crie uma conta para o efeito.



quarta-feira, 9 de março de 2011

Edição nº55




Crónica

Mercado de trocas: inédito?

Inédito disseram-me, quando expliquei a uma das pessoas o que era o mercado de trocas directas que vai ter lugar no Castelo de S. Sebastião dia 26 de Março.

Estas coisas das trocas directas, tão comuns nas zonas rurais e no antigamente um pouco por todo o lado, foi/é uma forma encontrada de quem tinha/tem produtos em excesso poder obter outros de que necessitava.

“Queres ovos?”, “Tenho plantio de…” E, penso, um novo ano, um novo ciclo se inicia… Porque não equilibrar?
Desde 1998, quando cheguei ao Faial, tenho contactado com pessoas e hábitos curiosos. Muito me alegra ouvir este apego à Terra e à generosidade, quanto não se ganha ainda com a partilha?!... (Muitíssimo). É esse o grande objectivo deste mercado, partilha de saberes/experiências ligados à terra tendo por pano de fundo a troca directa. Neste dia e local, qualquer pessoa pode trocar certos produtos desde que não seja por dinheiro; não são necessárias inscrições, basta aparecer e trocar.

O mercado de trocas está previsto apresentar-se nesse mesmo local em quatro épocas durante este ano, quase semelhante às estações: Março, Maio, Setembro e Novembro (últimos sábados). Para além dos produtos da terra mais evidentes, podem trocar-se: estacas, sementes, plantios, compotas, plantas aromáticas e/ou ornamentais, flores, pickles, rebuçados, mel… Abre--se ainda ao artesanato ou a quaisquer outros produtos feitos em casa (desde que pelos próprios ou por familiares): malhas, luvas, meias, cachecóis e tudo o que a imaginação e a habilidade forem capazes.

Para trocar há que ter imaginação! Se quer participar e não tem a sorte de possuir nada do indicado pode experimentar fazer um bolo/pão e venha trocar. Mesmo que apareça só por curiosidade ou vontade de observar traga uma chávena para ser ofertado com um chá de boas vindas! A sustentabilidade deste evento é uma palavra de ordem por isso não há lugar a copos de plástico e semelhantes.

Das 15h30 às 17h30 experimente dar outro valor às coisas… de igual para igual. Esta ideia está a ser concretizada por um grupo de amigos, contando com o apoio da Câmara Municipal da Horta (integrando a iniciativa Dias Verdes - ver caixa). Partilhe a sua curiosidade e venha espreitar e trocar no mercado de trocas de 26 de Março… inédito só para alguns!

Lídia Silva

Colaboradores:


Capa: Margarida Melo Fernandes - Lengalenga
Opinião: Lídia Silva
Arquitectura e Artes Plásticas: Ruth Bartenschlager, André Nogueira de Melo
Literatura: Miguel Valente, Mariana Matos
Ciência: Joël Bried
Gatafunhos: Tomás Melo

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Edição nº 54




Crónica

Arquitectura, Natureza e Amor
Caríssimos leitores,

Enviaram-me há uns dias um texto do Gonçalo M. Tavares, intitulado Arquitectura, Natureza e Amor. Trata-se de um pequeno texto editado pela Editora Dafne na colecção editorial OPÚSCULO – Pequenas Construções Literárias sobre Arquitectura. Para quem estiver interessado em conhecer a colecção mencionada pode aceder à página Web da editora – www.dafne.com.pt

Ao ler o título do texto logo reagi à sua temática seguindo a orientação instintiva do significado imediato das palavras que o compõem. Arquitectura, Natureza e Amor, são palavras de peso diferente na nossa cultura contemporânea, se é que algum dia tiveram pesos similares! Juntar estas três palavras é por si só um extra-peso ao que, acredito, sentimos de cada palavra isoladamente. Mas, é esta ténue linha possível de unificação das três palavras que me suscita a vontade de querer partilhar convosco este texto e a supra-vontade de podermos receber na redacção editorial do Fazendo as vossas reacções, reflexões, interrogações, instintos – no fundo, que este repto vos faça, prezados leitores, expor a vossa moral e juízo em volta da Arquitectura, Natureza e Amor.

O sentido desta crónica é este repto.
Gostaria imenso de juntar uma série de textos nossos, publicá-los e durante algumas décadas, diria, as que nos restam! – e sejam bem vindos os vindouros * - discutirmos uma nova escala de peso e leveza para um novo passo cultural. Porque a tradição ensina-nos que a cultura não é estática. E a arquitectura é um muito bom exemplo da constante transição, progressão, retrocesso.

Escreve o autor:
“Se a cultura é a natureza já medida, encaixotada (ou de uma outra forma: se a cultura é parte da floresta que transformamos em vaso), a arquitectura é o expoente máximo do acto de medir, de controlar. A arquitectura é um medir não apenas quantitativo, mas um medir qualitativo. Digamos: um medir que se preocupa com a componente estética: o resultado da medição não deve apenas ser certo, exacto – verdadeiro – mas também confortável, agradável aos olhos – belo, portanto.”

E continua:

“Materiais concretos surgem no mundo humano apoiados/começados pela fita métrica (o humano infiltrado na natureza: tentativa de dominar, através da ordem do número, o animalesco que rodeia a cultura) enquanto os materiais do pressentimento surgem no mundo humano apoiados pelo instinto (instinto: esquecimento súbito, e com consequências, da racionalidade – o animalesco infiltrado no humano).

E mais adiante:

“A arquitectura deverá ser, entre outras coisas, uma ciência moral. Ciência moral mas não moralista. Isto é: não uma ciência que tenha como objectivo aumentar a moral do espaço, não: defender a arquitectura como ciência moral é defender a arquitectura como uma ciência que se preocupa com a relação entre as distâncias, tamanhos, cores, não apenas numa relação de verdade ou beleza, mas ainda, e, por último, numa relação de justiça.

A arquitectura procura o verdadeiro, o belo e o justo – tese clássica. Isto é: ao número não basta ser exacto, terá de ser também belo e justo.
Quantidades belas e quantidades morais. Atribuir adjectivos fortes a não--qualidades como são as quantidades: eis a dificuldade do arquitecto e de qualquer artista ou escritor.”

Depende de nós. Sempre depende de nós a reposição de uma nova escala.
“Leveza não é ausência de peso, mas, sim, presença de leveza. Unidades de Leveza? Precisamos pensar nelas, encontrar-lhes um bom nome.”, denuncia o autor.

E questiona:

“Que cidade para esta floresta? Com que cultura responder a esta natureza? Que medições (exactas, belas e justas) fazer? Em suma: que arquitectura?”

E qual a nossa reacção perante o seguinte dizer de Robert Musil, num dos seus primeiros ensaios, em 1911:
“ Não sou o único (…) a defender a posição de que a arte pode não só representar o imoral e o aborrecido, como também amá-lo.”

Para Gonçalo M. Tavares, como consideração final:

“ O que importa não é a verdade, a beleza ou a justiça de cada coisa olhada isoladamente; o que importa é o que resulta da relação entre as coisas, da ligação entre as coisas. A excitação individual não é classificável até assistirmos aos seus efeitos; a excitação (desejo de ligação) resulta na ligação erótica – a ligação erótica consumada entre casa e espaço (floresta-cidade, natureza-cultura) e só aí podemos julgar o trabalho do arquitecto.
<>, aconselhava o poeta René Char.
O que poderá fazer então o arquitecto? De um modo simples: medir o espaço; tirar o medo ao espaço de modo que a resultante seja o edifício sobre o qual os homens e as mulheres digam, entre si, alto: lá dentro curvo-me apenas por amor. Se tal suceder eis que o arquitecto não fez apenas arquitectura, fez/ construiu um fragmento do discurso amoroso.”

E para cada um de nós, potenciadores deste grito que considerações gritar?

Seremos capazes de tecer um sentimento partilhado e escutar o seu eco? Escrevam-nos.

“O animal não se esquece que é humano: mede, quantifica: procura a verdade.
O humano não se esquece que é animal: pressente, entusiasma-se, exalta-se: procura o belo.”

Albino

Colaboradores:


Capa: Eduardo Brito - Rua da Rosa vista da Travessa de Porto Pim
Música: Miguel Machete
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia,
Lacuna: Andreia Rosa
Literatura: Maria do Céu Brito
Teatro: Ana Luena
Cinema e Gatafunhos: Tomás Melo

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Edição nº 53


Crónica

O Instituto Açoriano de Cultura
Desde a sua génese que o Instituto Açoriano de Cultura se ocupa e preocupa com a consolidação da sociedade açoriana, através da divulgação e do debate de temas ligados à contemporaneidade, no âmbito de um projecto cultural integrado e numa perspectiva de fortalecimento da massa crítica necessária ao desenvolvimento, a partir da “polis”, do nosso futuro colectivo.

Um dos vectores de acção que sempre nos acompanhou, tem sido a organização de seminários, colóquios e debates que, desde as primeiras “Semanas de Estudos”, têm permitido a abordagem consistente e fundamentada de matérias fulcrais e importantes para o entendimento da actualidade.

Outra das áreas de intervenção do IAC vem sendo a divulgação de artistas plásticos e respectivas obras, fazendo deslocar aos Açores exposições da maioria dos mais conceituados artistas nacionais, as quais foram apresentadas por todos o arquipélago açoriano, bem como o estudo e divulgação de obras de artistas açorianos, tais como o Arquitecto João Correia Rebelo, o Pintor José Nuno da Câmara Pereira, entre outros, para divulgação dentro e fora da Região.

No campo editorial, e na qualidade de maior editor regional, o IAC vem, ao longo das suas mais de cinco décadas de existência, mantendo uma actividade regular, destacando-se a Revista Atlântida, os livros do Inventário Imóvel dos Açores e muitas outras obras que estão maioritariamente disponíveis para o público interessado, em diversas livrarias ou através da nossa biblioteca virtual, que se encontra inserida no nosso site (www.iac-azores.org). Essas edições são distribuídas gratuitamente aos nossos associados activos.
Um dos projectos emblemáticos realizado por este Instituto foi a inventariação do património arquitectónico açoriano, desencadeado por um contrato firmado com o Governo Regional do Açores. Este foi desenvolvido nos últimos 13 anos, durante os quais se percorreram todas as ruas, de todas as freguesias dos 19 concelhos açorianos, identificando--se e inventariando-se todas as construções que, à luz de critérios técnicos e científicos, são consideradas exemplares e a proteger.

Outro dos nossos projectos-bandeira foi a produção e edição da primeira História dos Açores que, contando com a direcção científica de Artur Teodoro de Matos, Avelino de Freitas de Meneses e José Guilherme Reis Leite, foi concretizada com a elaboração de textos da autoria de três dezenas de especialistas em cada um dos períodos e áreas tratados. Esta obra, apresentada em dois volumes, retrata historicamente o arquipélago açoriano desde o seu povoamento até ao final do segundo milénio.

Tem sido ainda uma constante da nossa actividade a divulgação de temáticas e intervenientes tão díspares como a performance, a música contemporânea, as instalações… tornando difícil a definição exaustiva de uma instituição que nega e rejeita a si própria qualquer noção de confinamento físico, geográfico, ideológico ou temático. Estamos conscientes que a sobrevivência de estruturas como a nossa depende prioritariamente da importância que a sociedade envolvente lhe atribui. Sendo que, essa necessidade passará obrigatoriamente pelo serviço prestado e pelo contributo social concretizado.

Com esse objectivo e, como instituição de natureza associativa considerada de utilidade pública e sem fins lucrativos, que conta com um número de associados que ultrapassou no passado ano de 2010 a barreira do milhar, propomo- -nos a dar continuidade a esse projecto sempre actual de, através da cultura, reivindicarmos um papel activo e produtivo a nível regional, nacional e (porque não?) global.

Paulo Raimundo - IAC

Colaboradores:


Capa: "A Nebulosa Planetária da Hélice" de NASA, ESA, C.R. O’Dell, M. Meixner e P. McCullough
Ciência: Pedro Afonso
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Margarida Melo Fernandes
Música e Literatura: Victor Rui Dores
Cinema e Gatafunhos: Tomás Melo

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Edição nº 52


Crónica

Lisboa-Horta ou a razão de 2011
É Janeiro, início de um novo ano, as pessoas fazem desejos, têm esperança, prometem coisas, arriscam previsões, afiançam recomeços, elaboram metas, adormecem sobre as promessas de um 2011 melhor que o ano precedente. O que seria de nós se fossemos obrigados a ver o tempo como algo linear, se não tivéssemos esta sensação de novidade, o impulso de conferir sentido renovado aos dias do calendário que agora se inicia, esse desejo de ter coisas que possam recomeçar a cada instante? E como nós gostamos de ver surgir no tempo cronológico oportunidades novas, querenças e desafios em catadupa, por isso encaramos o nascimento de um ano como se de um outro ciclo se tratasse…

Avião de Lisboa para o mundo escrevia também o Alexandre O´Neill e nós aqui sentados numa cadeira de avião que nos transportará para um mundo salino e verdejante. Ainda que novamente sem conseguir escrever absolutamente o que quer que seja, isto é, quase nada. Não se importa de tirar tudo, repetia o segurança do aeroporto, não fosse transportar poemas em forma de explosivos para o arquipélago mais ocidental. Apetecia tanto dizer que há tanta poesia nas livrarias e nas bibliotecas que construiríamos uma ponte atlântica entre o continente e as ilhas e não seria necessário voar, por isso dá tanta vontade de engolir os livros, os cadernos e os poemas e guardá-los na memória para depois repeti-los a toda a hora a quem quisesse. Ou então permanecer em silêncio profundo, durante dias a fio sem nada para dizer, em retiro absoluto. À espera que o nevoeiro passe até que a palavra crise, agora vomitada e repetida até à náusea se cale em cada boca, em cada olhar, pois mesmo assim vamos desconhecendo, felizmente, o que escreveria Virgínia Woolf, a 5 de Janeiro de 1918: “Está tudo racionado, agora. A maioria dos talhos está fechada; o único talho que estava aberto foi cercado. Não se pode comprar chocolates, nem caramelos; as flores estão tão caras que tenho de apanhar folhas para as substituir. Temos senhas para a maioria. As únicas montras onde há abundância são as lojas de fanqueiros. Outras lojas exibem latas ou caixas de papelão, vazias sem dúvida. (…) Subitamente já se dá pela guerra em todo o lado. Suponho que deve haver ainda algumas ilhas de luxo, intactas, algures – talvez nas casas das quintas da Northumbria ou da Cornualha; mas a mesa das pessoas comuns está bem vazia. Os jornais, no entanto, florescem, e por seis dinheiros ficamos fornecidos de papel que chega para acender o lume durante uma semana.” E, finalmente, o avião a levantar… E, por vezes, lá vem o ensejo de ficar por aqui a ver o jogo e também jogar, pois quem não joga não ganha nem perde e há muito que sabemos que anda por aqui muita coisa errada. Apetecia-me por isso reencontrar a poesia à volta de Lisboa do Alexandre O´Neill e permanecer somente a olhar, a tentar ver se revejo aquele gesto ou então avião de Lisboa para o mundo, agora que eu sei que toda ou qualquer esperança já foi a enterrar. Resta-me apenas os dias claros de Agosto, a descoberta das árvores no Botânico pela manhã, o sossego estival do jardim do Príncipe Real, as ruas e ruelas de Alfama, enquanto for possível meditar ou esquecer tudo o que a memória – essa maldita – teima em querer guardar. E se ao menos houvesse duas nuvens de razão tocadas…

Fernando Nunes

Colaboradores:


Capa: "Cachalotes dos Açores" de Les Gallagher
Ciência: José Bettencourt
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia
Literatura: Eduardo Bettencourt Pinto
Gatafunhos: Tomás Silva

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