quarta-feira, 3 de março de 2010

Edição nº 33


Crónica

A sustentabilidade como factor de crescimento


Diariamente somos confrontados com inúmeros apelos à assumpção de comportamentos responsáveis, em última instância sustentáveis na sua relação com os outros e com a natureza.
A procura de um futuro assente num desenvolvimento sustentado passou, então, a ocupar a agenda política, numa procura pela satisfação “das necessidades da geração actual, que não comprometa a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades” (in “Relatório Brundtland”).
Também na ilha do Faial ambicionamos implementar um modelo de desenvolvimento, que inclua, nas suas várias vertentes, um pensamento não apenas ambiental, mas também social e económico. É nesta ordem de preocupações que a Câmara Municipal da Horta aderiu, em 2009, à “Carta de Aaalborg”, um compromisso a nível europeu, que pretende implementar, localmente, um conjunto de medidas que visam proporcionar uma boa qualidade de vida aos cidadãos e permitir a sua participação em todos os domínios da vida concelhia.
O Município, enquanto nível de governação mais próximo dos cidadãos, tem, assim, a importante missão de influenciar comportamentos que conduzam a uma maior sustentabilidade. Desde logo, exigindo uma democracia mais participativa, decorrente de uma gestão local que proteja e assegure o acesso aos bens comuns naturais, que reflicta e faça reflectir políticas de planeamento e ordenamento do território e que incentive o recurso a novas formas de energia.
Para concretizar ainda mais estes objectivos, estamos a trabalhar, conjuntamente com outros parceiros a nível local, na implementação da chamada “Agenda 21”, um projecto que já se encontra bastante avançado e que brevemente colocará a sustentabilidade como factor de crescimento no centro da discussão da sociedade civil.
Nesta medida, e em termos de preocupações de ordem ambiental, temos a obrigação de continuar a incentivar e a investir na separação e triagem dos 'excessos' que produzimos, reduzindo, dessa forma, os seus impactos negativos e tendo como pressupostos fundamentais a sua transformação em mais-valias locais. Temo-lo feito com algum sucesso, por exemplo, ao nível do papel/ cartão, onde somos os segundos maiores sistemas aderentes a nível nacional, mas certamente ainda há muito por fazer na valorização e aproveitamento dos nossos resíduos.
Ao nível do planeamento e ordenamento do território, temos vindo a preparar-nos com vários instrumentos, que permitem valorizar o solo, no respeito pelas suas várias utilizações, nomeadamente com os planos de pormenor das freguesias rurais e com o Plano de Urbanização da Cidade da Horta (já aprovado), instrumento estrutural para um pensamento único, integrado e de futuro para a Cidade da Horta e para a ilha do Faial, especialmente no âmbito da revisão do Plano Director Municipal.
Por outro lado, sustentabilidade é indissociável da promoção do Turismo e do próprio conceito de empreendedorismo, sobretudo se interligado com os sectores agrícola e das pescas. É fulcral, a aposta na melhoria das acessibilidades marítimas, em fase bastante avançada de investimento, bem como nas acessibilidades aéreas, onde continuaremos a insistir na necessidade de ampliação da pista do Aeroporto da Horta.
Paralelamente, continuaremos a privilegiar a promoção da ilha do Faial no contexto da náutica mundial, através da realização de regatas internacionais que evidenciam não só a importância da Marina da Horta, no Atlântico Norte, mas sobretudo os elevados padrões de qualidade das águas açorianas.
Também a valorização da frente marítima da cidade, no contexto das obras actualmente em curso na zona do novo porto, bem como o arranque das obras do saneamento básico assumem-se como oportunidades de desenvolvimento ímpares de adaptação, reconversão e valorização da nossa urbe, capazes de gerar sinergias no plano urbanístico, turístico, empresarial e ambiental.
Neste capítulo, planear com exigência, tendo em vista uma maior mobilidade e acesso aos bens comuns naturais, justificam a aposta feita na protecção e valorização do edificado, com a aplicação de incentivos directos na área de reabilitação urbana, como a redução do IVA ou a isenção do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI).
Por outro lado, deve prosseguir o incentivo à criação do próprio emprego, através do Centro de Empresas do Faial, entretanto criado, do núcleo empresarial, cujas obras se encontram em curso na antiga zona industrial de Santa Bárbara, e do gabinete do investidor, onde foram lançadas linhas de comunicação privilegiadas com o tecido empresarial que pretenda investir na ilha do Faial.
Brevemente, passaremos a contar com o chamado Cartão Azul, que introduz benefícios e instrumentos de facilitação para o usufruto de inúmeros serviços municipais, bem como de empresas aderentes, nas áreas de lazer geridas pela empresa municipal Hortaludus e para os idosos e jovens do concelho.
Em termos económicos, e dada a nossa forte dependência do sector agrícola, é necessário apoiar investimentos que visem a valorização do produto, por via da valorização biológica, capazes de oferecer uma qualidade com reflexos na produção e na comercialização.
Em matéria de sustentabilidade sócio-política, pretendemos desenvolver o tecido social, nas suas componentes humana e cultural. É por isso que aderimos ao Ano Internacional de Combate à Pobreza e à Exclusão Social, numa perspectiva de contribuir para a erradicação destas problemáticas, também em parceria com a sociedade civil.
Em suma, os objectivos aqui discutidos devem servir de base não só à reflexão, mas também à acção, no sentido de nos prepararmos, cada vez mais, para os desafios do futuro. Com a confiança de estarmos a contribuir para uma ilha e um concelho mais sustentável, onde todos e cada um de nós pode descobrir a seu contributo indispensável para um EFECTIVO desenvolvimento SUSTENTÁVEL."

João Castro




Colaboradores:

Capa: Manuela Ferreira
Crónica: João Castro
Mini-entrevista:
Aurora Ribeiro
Cinema e Teatro: Aurora Ribeiro e Fausto Cardoso

Arquitectura e Artes Plásticas: Rui A. Pereira
Literatura: Carla Cook
Ciência e Ambiente: Parque Natural do Faial, Sílvia Lino, Tomás Silva

Gatafunhos: Tomás Silva

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Edição nº 32



Crónica

E a criatividade expõe-se: Mostra LabJovem 2010


Hoje, dia 11 de Fevereiro, os nomes dos seleccionados da segunda edição do LABJOVEM – Concurso de Jovens Criadores dos Açores serão apresentados ao público. Depois da fase das candidaturas (de 1 de Maio a 2 de Novembro), e das reuniões dos júris (de 11 a 13 de Dezembro de 2009), chegou finalmente a altura de se conhecerem os seleccionados. A apresentação decorrerá no Teatro Faialense, no seu exterior e foyer, com a presença de duas instalações da autoria de André Sier, e com a actuação da banda de Jazz faialense Zeca Trio. O evento terá transmissão online através do site do concurso (http://www.labjovem.pt/).É com enorme prazer que assistirei ao final desta fase do Concurso e ao arranque de uma nova fase: a Mostra LABJOVEM 2010, na qual os trabalhos dos seleccionados serão apresentados, numa exposição itinerante, ao público açoriano e além-Açores. A Mostra arrancará oficialmente em Setembro, embora antes haverá a possibilidade da apresentação de alguns dos trabalhos seleccionados, como é o caso da Semana dos Açores, no Teatro São Luiz, em Lisboa, que recebe trabalhos da primeira e da segunda edição, de 2 a 7 de Março de 2010.
O prazer a que aludi é, ao mesmo tempo, um misto estranho de ansiedade e de regozijo. Regozijo porque acredito que este projecto (do Governo Regional dos Açores, através da Direcção Regional da Juventude) é um bom exemplo do quão importante é o estabelecimento de parcerias entre governo e associações civis, na persecução da promoção da criatividade juvenil – a Associação Cultural Burra de Milho, da qual sou presidente, tem sido a entidade organizadora deste concurso. E regozijo porque vejo neste projecto o resultado da vontade de se criarem mecanismos de promoção da criatividade, estruturas que fomentem a competitividade saudável entre os jovens artistas e, mais do que tudo, permitam o espaço para a diferença, para a contemporaneidade, para a aposta nos nossos jovens criativos regionais.A ansiedade surge depois, quando penso no tempo em que não existiam concursos de jovens criadores, nem mostras de trabalhos seleccionados, nem possibilidades para os jovens artistas se afirmarem no panorama cultural regional, quanto mais nacional ou internacional. Este concurso é um motor de exposição, uma plataforma de criatividade que tem como grande objectivo o de permitir que os nossos jovens possam não só criar livremente como também apresentar as suas criações e, quiçá, com essas apresentações, estabelecerem contactos para trabalhos futuros. Isto já aconteceu com a primeira edição, na qual alguns artistas tiveram encomendas de trabalhos criativos mercê da exposição pública de que gozaram durante a Mostra LABJOVEM 2008. E acredito que vai voltar a acontecer nesta segunda edição. E é esta crença, esta aposta nos jovens valores criativos açorianos, que nos move. A nós, Burra de Milho, ao Governo Regional dos Açores e à Direcção Regional da Juventude, o que interessa é que os jovens artistas tenham possibilidade de se fazer ouvir e ver, de conhecer, de evoluir, de criar sinergias e competências que lhes permitam ser mais e melhor, ir mais longe, criar mais.
É por isto que o prémio atribuído aos primeiros seleccionados de cada área a concurso não é em forma de dinheiro. É com esta ideia em mente que os primeiros seleccionados recebem uma bolsa de formação no estrangeiro, num local à sua escolha, no período do ano em que lhes melhor convier. Tivemos seleccionados da primeira edição em locais tão diferentes como Itália, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos da América e Argentina. E no regresso, todos foram unânimes em afirmar que a experiência por que passaram foi não só agradável a nível pessoal como extremamente produtiva e enriquecedora a nível criativo.Através dos relatos dos jovens seleccionados (que acompanhámos de perto, embora ao longe), pudemos compreender o alcance de um concurso desta natureza; a urgência do desenvolvimento dos mecanismos de promoção da criatividade; a importância em se desenvolverem ainda outras plataformas e outros mecanismos que possam potenciar ainda mais este capital criativo açoriano que, ao longo da história, tantos e tão importantes nomes da cultura nos tem dado.Esta segunda edição destaca-se também pela introdução de algumas melhorias no formato do próprio concurso: com informação decorrente da primeira edição, realizou-se uma Residência Artística em torno das áreas que haviam tido menos concorrentes; introduziu-se a possibilidade de os jovens concorrerem através da Internet, tornando o processo de candidatura mais simples; descentralizaram-se actividades (residência na Terceira; reuniões dos Júris em São Miguel; apresentação dos resultados no Faial); transmitiu-se online e em directo, com recurso às Novas Tecnologias e à linguagem criativa contemporânea, apenas para citar alguns exemplos.Com o trabalho feito até agora, e com o muito que há para fazer, acredito que o concurso LABJOVEM será, no futuro, a plataforma de exposição por excelência para os jovens artistas dos Açores.

Rogério Sousa




Colaboradores:

Capa: Rapahel Calduch
Crónica: Rogério Sousa
Mini-entrevista: Aurora Ribeiro
Cinema e Teatro: Fausto Cardoso

Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Paulo Oliveira
Literatura: Céu Brito, Ilídia Quadrado
Ciência e Ambiente: Parque Natural do Faial, Verónica Neves

Gatafunhos: Tomás Silva

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Edição nº 31



Crónica


Por uma Democracia avançada


O Jornal Fazendo (Agenda Cultural Faialense) surgiu aqui na Horta, no dia 1 de Outubro de 2008, por iniciativa de jovens criativos e livres, assume-se como comunitário, não lucrativo e independente e visa, tal como é dito no primeiro número, constituir “uma plataforma de divulgação do que cá se faz”, para logo acrescentar “o que cá se faz na música, o que cá se faz no cinema, no teatro, na fotografia, na ciência e em tudo o mais”. O Jornal Fazendo tem não só cumprido muito bem esses objectivos, ao longo dos seus trinta números publicados, como os ultrapassou, sendo hoje uma referência criativa que muito contribui para a valorização da nossa comunidade e para a afirmação de uma cada vez maior capacidade colectiva de fazer, de construir e de transformar. Essa capacidade existe mas é por uns desvalorizada, por outros negada e por outros ainda obstruída. O Jornal Fazendo contraria a estagnação, nega a obstrução, afirma as muitas capacidades existentes e contribui para que elas se consolidem e desenvolvam.
Por tudo isto foi com natural satisfação que recebi do Jornal Fazendo o convite de colaborar neste número, tendo-me sido dito que tratasse o tema que entendesse. Entretanto insisti para que houvesse da parte do Jornal uma sugestão e ela veio no sentido de tratar “a possibilidade da concretização dos ideais comunistas hoje em dia e mais concretamente aqui no Faial”. Recebo a sugestão com inteira naturalidade e mesmo com satisfação, pois é público que a minha participação política foi sempre assumida como militante, que há muito sou, do PCP. Respondo ao desafio, mas alertando, desde logo, que este texto só pode pretender ser uma primeira reflexão sobre um tema muito vasto. Posto isto, ai vamos, fazendo….


Começo por dizer que como comunista que sou, luto por uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem, da opressão, desigualdades, injustiças e flagelos sociais, onde o desenvolvimento das forças produtivas, o progresso cientifico e tecnológico e o aprofundamento da democracia económica, social, política e cultural assegurarão aos cidadãos liberdade, igualdade, elevadas condições de vida, cultura, um ambiente ecologicamente equilibrado e respeito pela pessoa humana. É este o ideal comunista pelo qual luto, integrado num Partido que o assume de forma integral, desassombrada e sem concessões. É por este ideal comunista que muitos milhões de seres humanos lutam, sabendo embora que as pesadas derrotas, de várias naturezas, que contra ele se produziram ou foram induzidas, atrasam a luta, dão força à sua negação, alimentam divisionismos, inspiram oportunismos, solidificam desconfianças. O ideal comunista é um ideal de transformação profunda, que implica a transformação do próprio homem.


Lutar por esse ideal tem que ser lutar por todos os objectivos imediatos e de médio e longo prazo que possam contribuir para a construção de uma sociedade que, sendo democrática, seja também mais justa. Não se luta por esse ideal assumindo conformismos e praticando concessões.


Lutar por esse ideal implica defender todas as conquistas civilizacionais que foram sendo adquiridas pela humanidade. Implica defender todas as conquistas políticas que valorizam o papel da sociedade, a sua liberdade e os direitos individuais e colectivos adquiridos. Implica reconhecer o valor do trabalho enquanto modo de criar riqueza e enquanto forma de valorização pessoal. Implica a procura constante de formas mais justas de repartir a riqueza criada, de colocar ao serviço pleno da Humanidade a fulgurante evolução da ciência e da técnica a que assistimos. Implica o urgente aprofundamento da luta para anular os criminosos e sistemáticos atentados que se fazem todos os dias, à escala planetária, contra os equilíbrios ambientais, que são essenciais à vida.


Lutar por esse ideal implica uma luta permanente pela Paz, pelo direito dos Povos a existirem e a viver de acordo com as suas legítimas aspirações, pelos direitos individuais que deverão ter como limite os legítimos direitos das comunidades.Lutar por esse ideal, neste Mundo que está a ser alvo de uma globalização dominadora e destrutiva, obriga à luta pela preservação das especificidades que marcam os Povos, as comunidades e as várias formas de ser e de estar, associada a uma ideia clara de globalização construtiva, valorizadora da humanidade e respeitadora das diferenças.


Lutar hoje, no nosso Pais, pelos ideais que assumem os comunistas e que, pela sua natureza, são partilhados por muitos cidadãos, obriga a que se criem condições de verdadeira credibilização social desses valores, como valores autênticos e, necessariamente, substitutivos dos falsos valores hoje dominantes, que apelam a um individualismo feroz, a uma alienação massiva e que deitam mão a uma manipulação global sem precedente. O conceito de democracia avançada, criado e consagrado pelos comunistas portugueses deste nosso tempo, aparece como objectivo político pelo qual se luta e que visa atingir uma democracia que seja, simultaneamente, económica, social, política e cultural. Dar sentido à democracia política associando-lhe a justiça social; criar, sem manipulações, uma intensa e participada actividade cultural; enfrentar, com resolução, os múltiplos e graves problemas sociais, gerados, todos os dias, pela injustiça e exploração reinantes; consolidar uma nova forma de encarar as questões ambientais e a sua relação com as actividades produtivas; são, de entre outros, objectivos transformadores incluídos neste vasto programa político pelo qual luto.


Pensar estas questões, à escala da nossa Região Autónoma ou da nossa Ilha é não só motivador como pode ser mobilizador, uma vez que se torna mais fácil perceber, no concreto, quanto melhor seria!


Ser daqui e estar aqui tem que implicar, cada vez mais, um esforço continuado de transformação positiva, de concretização, na prática, dos valores que se diz defender e de combate aos constantes comportamentos dúplices a que todos assistimos. A sociedade tem que ganhar consciência de que os poderes políticos e sociais não podem ser exclusivo dos que sempre foram, ou dos que se transformaram, em carreiristas, cujo objectivo é, sempre, o de manter as situações e beneficiar com isso. Os poderes políticos, incluindo o poder local, têm que ser obrigados a perceber que existem para servir e não para serem a correia de transmissão dos interesses dominantes e dominadores que tudo condicionam e que procuram, em cada minuto que passa, tentar evitar transformações positivas.Não é racional pensar-se que o Mundo há-de ser sempre como hoje é! Lutar, com convicção e alegria, pelas rupturas e transformações que são precisas e urgentes, é o único caminho que podemos vislumbrar, no emaranhado de dificuldades e obstáculos que se nos apresentam. Esta ideia é válida em geral e é válida para esta nossa Terra, onde, quando nos convencermos que existe essa possibilidade, podemos viver bem melhor do que hoje acontece.


Sem qualquer espécie de triunfalismo e sem nervosismos inconsequentes, espero convictamente que este Povo possa voltar a erguer os cravos que já vi e possa voltar a fazer, com verdade, o V da Vitória.

José Decq Mota




Colaboradores:

Capa: David Garcia
Crónica: José Decq Mota
Música: Victor Rui Dores
Cinema e Teatro: Aurora Ribeiro
Lacuna: António Jorge da Câmara
Arquitectura e Artes Plásticas: Paulo Oliveira
Literatura: Carla Cook, Miguel Valente
Ciência e Ambiente: Vanda Carmo e Diana Catarino
Gatafunhos: Tomás Silva

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Edição nº 30




Crónica


Re(faial)izar


Eu era novo, demasiado novo, quando vim aos Açores pela primeira vez. Foi um pouco depois dos célebres protestos estudantis na República Popular da China e um mês antes da queda do muro de Berlim. Passaram-se, portanto, vinte anos, pude confirmá-lo agora com as fotografias guardadas no silêncio da gaveta. Foi amor à primeira vista. À semelhança dos amores duradouros, há dias com maior paixão e intensidade, dias claros e luminosos, outros nem por isso. Quando aqui estive, em 1989, ainda não tinha lido o livro de Raul Brandão “As Ilhas Desconhecidas”, nem o arquipélago açoriano era considerado o segundo lugar dos melhores destinos do mundo no turismo sustentável (segundo a revista “National Geographic
Traveler”). Porque nasci à beira-mar, fiquei com uma memória viva desse primeiro encontro, daí a nunca mais ter esquecido foi um passo de gigante ou o tamanho da montanha do Pico.
Há duas décadas fazer uma viagem a quatro ilhas dos Açores: Faial, Pico, Terceira e São Miguel, foi um profundo acaso na vida de um adolescente. Tudo aconteceu após ter escrito um artigo para a Antena 1, o programa “Os Jovens Encontram a Europa”, sobre um tema que gostaria de ver discutido no Parlamento Europeu: o desemprego. Três meses depois, tive direito a um prémio. O prémio foi uma viagem/visita com tudo pago ao arquipélago dos Açores durante oito dias, com estadia incluída. Era uma comitiva de estudantes muito novos: portugueses, espanhóis, italianos e alemães para além dos organizadores, todos eles ligados às emissoras radiofónicas dos países organizadores do respectivo concurso. Com a bagagem retida em Lisboa, a primeira ilha a visitar foi o Faial com o seu vulcão dos Capelinhos, o Cabeço Gordo, a Caldeira e a passagem natural pelo Peter Café Sport. Tudo isto superou a possível irritação com os haveres, tendo dado origem a uma grande aventura até ao aeroporto em carrinha de caixa aberta, um dia depois, dada as constantes alterações climatéricas que se faziam sentir e as oscilações naturais do percurso, pois nem tudo estava naquela altura alcatroado.
Recordo-me, muito para lá do postal turístico, da presença esmagadora do verde enquanto reflexo da força e poder dos elementos naturais: a abundância da água que caía, a irradiação
da luz e as suas variações cromáticas e, claro, as nuvens em constante mutação. E, evidentemente, a visão do Pico que também naquele momento nos enchia a vida…para além dos licores, que lá fomos beber dois dias depois. Os Açores assemelhavam-se, portanto, à “policromia orgiástica”, que mais tarde viria a descobrir no livro de Brandão. Os Açores eram assim a infância renovada, a possibilidade de reencontrar uma natureza ainda intocável e virgem que, para desencanto de muitos continentais, foi desaparecendo nas terras do litoral e, quem sabe, no interior. E, embora hoje se sinta um sentimento de “continentalização”, é o progresso dizem-nos, a paisagem é perene e imutável, continuando por isso sempre bela e de fácil contemplação.
Os Açores, para qualquer ser melancólico em crescimento, prolongavam e prolongam o espelho. Pode-se afirmar que, passados tantos anos, os Açores continuam a ser lugares imaculados de silêncio e de natureza rica na sua expressão mais vital e fulgurante, os tais “montes de fogo, vento e solidão”, descritos pelos primeiros navegantes. E, talvez por isso, há quem goste de contemplar e se sinta bem por aqui.




Fernando Nunes




Colaboradores:

Capa: Pedro Lucas
Crónica: Fernando Nunes
Música: Fernando Nunes
Cinema e Teatro: Aurora Ribeiro, Fausto Cardoso
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Paulo Oliveira
Ciência e Ambiente: Cláudia Oliveira, OMA
Gatafunhos: Tomás Silva

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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Edição nº 29



Crónica

As doenças das Cidades

A Requalificação urbana impõe-se, quando estamos em presença de núcleos urbanos “doentes”, que já não respondem às necessidades dos seus habitantes, residentes ou passantes.Esta desactualização das freguesias e das cidades, poderá verificar-se “dentro de portas” no edificado, ou seja, nas construções, ou “fora de portas” nos espaços urbanos livres, sejam praças, jardins ou nos circuitos pedonais (passeios) e viários (estradas e estacionamentos).Quando estamos doentes, quando o nosso corpo não responde da melhor forma às nossas solicitações, seja pelas dores que sentimos directamente nos músculos, nos ossos ou na... mente, seja pelo deficiente funcionamentos dos diversos aparelhos (circulatório, respiratório, digestivo,...) que fazem funcionar esta “máquina” que nos suporta, consultamos o médico de clínica geral e pedimos a sua ajuda na prescrição de uma receita médica. Se a doença persistir ou mesmo se agravar, então temos que consultar novamente um médico, mas especialista, tendo por objectivo uma acção mais direccionada ao mal de que padecemos.Da mesma forma, funcionam os centros urbanos. Quando não funcionam, quando sentimos “dor” ao percorrê-los, quando a fluidez de pessoas e viaturas é deficiente, há que consultar os médicos especialistas em cidades: os arquitectos, os urbanistas, os engenheiros, etc., consoante seja a especificidade do mal de que as cidades padecem.


Se a “doença” for num edifício, porque ameaça ruir, porque já não responde à actividade que nele se desenvolve, ou porque simplesmente é um mau exemplar de “arquitectura” que importa tratar, então estamos perante um problema edificado, cuja solução, mais ou menos complexa, é pontual e localizada, dizendo respeito ou afectando um número menor de pessoas, pelo que uma prescrição individual será suficiente.Se, pelo contrário, estamos perante uma cidade que “padece” e afecta toda uma população, no seu dia a dia, no seu bem estar, causando uma “dor generalizada” a todos os seus habitantes e passantes, então importa intervir com rapidez, determinação e eficácia, porque o “custo social” é maior, e porque poder-se-á estar perante o risco de uma “pandemia”, que poderá levar essa cidade à falta de atractividade, à desertificação.Nas cidades, as doenças terminais não acontecem por acaso, nem de um momento para o outro.Existem sucessivos sinais de aviso, que, tal como nos humanos, são alertas detectáveis se forem sendo feitas análises periódicas ao seu funcionamento, genericamente falando.O mal do património edificado e urbano é que não é acompanhado ao longo da sua existência pelos seus legítimos e mais directos responsáveis: os proprietários ou gestores da causa pública.


Os humanos devem consultar e fazer análises periódicas ao seu organismo, em laboratórios, pelo menos uma vez no ano (eu faço). E aos animais, fazemos o mesmo?As viaturas deverão fazer revisões anuais, em oficina credenciada (eu faço) e submeter-se às inspecções periódicas obrigatórias (aqui, todos fazem...).As construções (moradias, estradas e jardins), grandes investimentos particulares e públicos, raramente contam com essas revisões periódicas... Por vezes, quando surgem os problemas, a “doença” já está tão avançada, que o remédio já não existe...


Curioso, e lamentável, é que cuidamos melhor de um carro ou de um animal do que de nós próprios, da nossa casa, da nossa freguesia, ou da nossa cidade!É tudo uma questão de hábitos e de educação, ou será uma questão financeira e de prioridades, ou será, ainda e só, uma questão de interesses e de votos?


(Este é o primeiro artigo de uma série de quatro, que visam uma abordagem à arquitectura e urbanismo na cidade da Horta)

Paulo Oliveira




Colaboradores:

Capa: Pedro Gaspar
Crónica: Paulo Oliveira
Cinema e Teatro: Anabela Morais, Aurora Ribeiro
Ciência e Ambiente: Bruno Lacerda
Gatafunhos: Tomás Silva

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Edição nº 28



Crónica

Íntimos Paraísos Feitos de Papel


“O que na vida perco, em tinta o acho”
Vitorino Nemésio, Andamento Holandês

Escrever sobre “Literatura Açoriana” - tema proposto - não é fácil. Primeiro é preciso provar a sua existência e esta é uma questão que vem sendo debatida ainda eu comia chupa-chupas em público sem que ninguém olhasse para mim de lado. Porque é que é tão difícil provar que existe uma “Literatura Açoriana”? Porque teria de ser intrinsecamente diferente da Portuguesa o que implicaria, desde já, uma Cultura Açoriana distinta da Cultura Portuguesa que se expressasse em Literatura. Ora, admitir a especificidade de uma Cultura é algo cujas implicações não cabem aqui… Vamos elegantemente saltar por cima do conceito hipertrófico de Cultura, admitir que a Açorianidade existe e que a sua especificidade está reflectida na Arte que os Açorianos escrevinham. Como é que a Literatura expressa a Açorianidade? Um falecido Professor de Mestrado meu, Martins Garcia, dedicou a sua vida a estudá-lo e, lendo as suas conclusões, quase apetece dizer “A Literatura Açoriana é um poço de indefinições! Todos ao psiquiatra, de imediato!”.


Tomemos como exemplo Roberto de Mesquita e já vão ver porquê – poeta nascido em 1871 nas Flores, de onde só saíu para uma viagem ao Continente, e cujos escritos já Nemésio considerava “ o melhor exemplo do perfil difuso (…) da Açorianidade”. Este adjectivo é importante, como as brumas. Certo é que R.M. tinha uns traços afrancesados simbolistas porque lia Baudelaire, Verlaine e essa malta, mas distinguia-se deles pelo seu “sentimento de solidão atlântica” que é, afinal, a condição humana dos açorianos, ilhéus no meio do grande mar. Dizer só isto é pouco, pois não faltam ilhéus por esse mundo fora (e alguns dividem o Atlântico connosco), portanto não sejamos arrogantes. Porque é que estarmos insulados nos faz tão diferentes? Porque o Açoriano não está insulado. Ele é insulado. Parêntesis para dizer que, deste modo, a Literatura Açoriana adquire uma geografia muito mais ampla: o Açoriano leva a Ilha para onde quer que vá – arquétipo mítico da Ilha Perdida que já só dentre dele existe, arca de onde se retira material para muita literatura e tema de uma perturbação mutiladora vulgarmente conhecida como “Síndroma de Ulisses” (que não é só açoriano e nada tem de mítico, infelizmente).


Voltemos um pouco atrás – ao ser-ilha. É notória a influência dos elementos naturais na psique do Açoriano. Na Literatura Açoriana, a ambiência natural aparece como parte íntrinseca do sujeito,quase deixando de haver distinção entre a objectividade da Natureza e a subjectividade do poeta. O clima como definidor da anima é uma noção tão verdadeira quanto terrível pois o clima açoriano é de mormaço, de humidade abafada, propensa a muito pensamento e a “ilimitação parada “ de “ilhas acobardadas em neblina”, como se lê no Mau Tempo no Canal – livro extraordinário para avaliar da cobardia e dos repentes de coragem, conforme o Pico tem nuvens ou não…


Este mesmo livro define muito bem a “clausura insular”, a noção de ilha como prisão, o que é compreensível para qualquer não-ilhéu. O que já é mais difícil de explicar é porque é que os Açorianos são tão paradoxais que encaram a Ilha tanto como prisão quanto a vêem como miragem de total liberdade, por oposição às grandes capitais (restos de ideias de Rousseau?). Dividem-na em duas ilhas perfeitamente antagónicas e carregam ambas, coexistentes, sendo a “Ilha escravizante” mais forte quando lá habitam e a “Ilha sedutora” mais forte quando dela estão apartados. Porque a Ilha é como uma sereia: canta muito bem até nos agarrar.


Isto leva-nos ao grande tema da Literatura Açoriana: a viagem. Como não, com tanto mar? Mas, novamente, o Açoriano hesita, interroga-se, não se decide de uma só vez. Está encantado com a visão atlântica e deleita-se a imaginar as vivências que teria nos mundos para além mas igualmente tem um certo gosto em deixar-se ficar no seu canto conhecido, no encanto dos cheiros da terra de sempre. A maior parte acaba por recalcar o sonho da distância em amargura, levando o dia-a-dia num “viver quietista”. Outros há que partem, o que é sempre encarado como uma transgressão. E há, ainda, a transgressão suprema, a daquela personagem fabulosa chamada “o torna-viagem”, o que partiu e voltou, a mais solitária de todas as figuras porque não tem lugar a não ser como contador de histórias.


Claro que não é possível resumir as características da Literatura Açoriana numa opinião de meia-folha. Direi, como já outros disseram, que ela é “solidão, cárcere, infinito e fuga”. Acrescento, também, que não se pode falar dela sem falar de emigração, uma emigração sem lugar de chegada, mas apenas com lugar de partida: a Ilha Açoriana é íntima, para além de física – depois da evasão, estilhaça-se, parte-se num indivíduo também ele próprio fragmentado pelas circunstâncias de dois mundos, mas continua a existir.


Quanto ao mais, seria interessante (num artigo mais longo), verificar a incidência de tantas mulheres-anjos e outras tantas mulheres-demónios na Literatura Açoriana. De facto, somos mal amadas porque somos sagazes Circes ou, pelo contrário, mitificadas de tal modo que de símbolos não passamos… Pois, não sei se cheguei a mencionar que a Literatura Açoriana não é um caso de Teoria da Literatura – é um caso de Psicologia.


Felizmente, nalgumas linhas, nalgumas páginas é tão bonita que vale todo o tempo que lhe dedicamos. São íntimos paraísos feitos de papel.

Carla Cook




Colaboradores:

Fotografia da Capa: Tomás Silva
Crónica: Carla Cook
Cinema: Aurora Ribeiro
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Tomás Silva
Literatura: Ilídia Quadrado


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sábado, 28 de novembro de 2009

Edição nº 27


Crónica

Impressões do Faial

Como dizia a minha mulher: "Cala-te! Não és parâmetro de nada!"

Assim o meu critério, o meu comentário sobre a cultura do Faial será necessariamente subjectivo, parcial, insuficiente, estrangeiro, digamos.O que mais me surpreendeu, ao chegar, foi a enorme diversidade, a abundância de oferta. Os faialenses gozam de uma riqueza cultural abundante e até redundante face à sua capacidade de absorção. De todos os modos a cultura inclui um vasto segmento do universo da manifestação humana e é difícil que um indivíduo alcance todo o seu espectro.Cinema, teatro, pintura, música, ciência, tradições, literatura. Não tem o dia alcance suficiente para absorver a totalidade do que se produz, do que se exibe e do que acontece. O Faial é rico, não só pela sua ampla gama de manifestações culturais, como também pelo impulso dado por algumas pessoas a partir dos diversos organismos oficiais, privados, e até a partir de manifestações individuais. Impulso este que é necessário valorizar, aproveitar e promover, para que não se perca como água em areia.


Além do mais, o contexto social, com gente de todo o mundo e influência de outras culturas, é rico por si só. Os açorianos retornados dos E.U.A., Canadá, Brasil, África e outros lugares já não vivem só a atmosfera portuguesa como trouxeram consigo outros aromas, outros modos, outra maneira de ver.


Também os estrangeiros que, encantados pela ilha, se deixam ficar por algum tempo ou decidem nela fazer a sua morada permanente, contribuem para este caldo espesso, rico, da cultura. Caso assim não fosse, seria suficiente a extensa cultura portuguesa, as tradições, as sopas do Espírito Santo, as procissões religiosas, os desfiles de motos, a vida social própria, tão ligada aos estreitos laços familiares, a curiosidade e o desejo de aprender, para manter uma dinâmica activa e variada.


Há dinheiro no Faial, há uma abundância de meios própria dos países europeus que surpreende qualquer sul-americano, africano ou terceiro-mundista. Desde o Museu da Horta, a Direcção Regional da Cultura, a Universidade, o DOP, a Biblioteca, as várias publicações, diários, revistas, o Fazendo!, cria-se uma activa gama de manifestações culturais que bastam para cobrir amplamente as necessidades a este nível. Há no entanto sempre espaço para cobrir alguns segmentos menos desenvolvidos.


É muito bom ver como diariamente aparecem exposições,peças de teatro, projectos cinematográficos, livros, concertos, e também desportos, investigação científica, conferências sobre os mais variados temas, cursos de quanto é possível imaginar, quase tudo gratuito ou a baixo custo; há realmente uma efervescência, uma abundância e uma diversidade quase irresistíveis.


É claro que para uma população relativamente reduzida, o número de participantes em cada actividade tem que ser pequeno. É também claro que o interesse de cada um, individualmente, pode ser ampliado e enriquecido com novos horizontes. A tendência para a passividade do homem deve ser removida para que possamos desenvolver outros campos que não os estritamente profissionais ou utilitários. Somos homens (em sentido genérico) e temos uma capacidade de absorção, de compreensão e de acção sempre maior do que aquela que exercemos. Este é um ponto a impulsionar; desde a educação e desde o exemplo.


Interessar-se é o primeiro passo, partilhar e suscitar o interesse dos outros, a necessária continuação. No mundo e na história da cultura humana sempre se verificou que uns poucos criam, descobrem e impulsionam o desenvolvimento, sendo esta a responsabilidade de cada um: dar o melhor de si para contribuir para o desenvolvimento social. Desde o agricultor que descobre um novo método de ordenhar as vacas ao médico que desenvolve uma vacina, desde o actor que interpreta uma obra ao comerciante que importa um produto diferente, todo o esforço criativo é uma semente que pode crescer em solo fértil: é necessário que nos façamos perceptivos, abertos, atentos, para não desperdiçar os imensos dotes que continuamente fluem junto a nós.


A Horta vive sob um fluxo de enorme riqueza cultural, é necessário apreendê-lo desde o individual e expandi-lo para o social.Poderia encher duas folhas nomeando as gentes, os grupos, as instituições que continuamente contribuem para a riqueza do Faial. Parece-me melhor que cada um faça a sua própria contabilidade, o seu próprio balanço para que se compreenda melhor a enorme extensão daquilo que é feito. Uma sociedade em que jovens e velhos, homens, mulheres e crianças têm uma ampla possibilidade de escolha cultural, deve ser aproveitada.

Pedro Solá




Colaboradores:

Fotografia da Capa: Albino
Crónica: Pedro Solá
Mini-entrevista: Aurora Ribeiro
Cinema: Aurora Ribeiro, Renata Lima
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia
Literatura: Ilídia Quadrado
Ciência e Ambiente: Victor Rui Dores


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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Tertúlia do Mar - Dia Nacional do Mar



A Associação Cultural Fazendo em parceria com a Ecoteca do Faial e o Gabinete para os Assuntos do Mar organizará uma tertúlia no próximo dia 16 de Novembro, Dia Nacional do Mar. Esta tertúlia, que terá lugar no Clube Naval da Horta, às 18h00 do dia 16, ocorre no âmbito do Fórum Permanente para os Assuntos do Mar, uma plataforma insititucional que pretende excitar, na sociedade civil, a discussão e o desenvolvimento de acções relacionadas com o mar. A discussão será moderada pelo Prof. VÍtor Rui Dores e contará com representantes da Secretaria Regional do Ambiente, D.O.P., Clube Naval da Horta, antiga Indústria Baleeira, actividades piscatórias e marítimo-turísticas, Museu da Horta e actividades de consultoria marinha assim como a participação da população em geral.

O Fórum Permanente para os Assuntos do Mar (FPAM) é um mecanismo institucional de nova geração com carácter necessariamente experimental, visando ser uma voz credível da sociedade civil sobre Assuntos do Mar. Com enquadramento na Estratégia Nacional para o Mar - documento que adopta uma política integrada e abrangente na governação de todos os assuntos do mar - reflecte a importância atribuída ao diálogo como elemento de referência para o sucesso deste projecto nacional. O Fórum pretende estimular a troca de informação e a promoção de acções relacionadas com o Mar, numa perspectiva abrangente. Procura-se, desta forma, que o FPAM constitua uma plataforma informal entre o governo, a sociedade civil e os parceiros sociais, numa perspectiva de responsabilidade partilhada. É igualmente objectivo do FPAM estimular a recolha, troca e disponibilização de informação, com vista a implementar um sistema de gestão de apoio às actividades do Fórum, bem como servir os parceiros sociais neste domínio.

No âmbito do FPAM está prevista a criação de grupos de trabalho temáticos e de núcleos/redes, nomeadamente nas Regiões Autónomas dos Açores (RAA) e da Madeira, que são considerados elementos para o desenvolvimento a nível nacional das funções atribuídas ao FPAM, à escala nacional. De facto, durante a Semana do Mar de 2008 foi realizada, na cidade da Horta, uma Reunião dos Membros da RAA, que contribuiu para a dinamização do Núcleo/Rede e para o envolvimento da Região nas actividades do Fórum.

Edição nº26


Crónica

A relevância do Mar

Dentro de alguns dias comemora-se em Portugal o Dia Nacional do Mar. Para além da tradicional evocação de um passado glorioso, as comemorações dos tempos de hoje passaram a estar viradas essencialmente para o futuro. Uma das causas principais para essa mudança de sentido foi exactamente a sensibilização da opinião pública portuguesa decorrente da Exposição Mundial de Lisboa “Os Oceanos – Um património para o futuro da humanidade” realizada em 1998. Poucos anos depois, em 12 de Dezembro de 2006, o governo português elaborava a Estratégia Nacional para o Mar (ENM), que reconhece o mar como um dos principais factores de desenvolvimento do País, se devidamente explorado e salvaguardado, e relevando o facto de Portugal dispor da maior Zona Económica Exclusiva (ZEE) da União Europeia e de uma Plataforma Continental em vias de alargamento. Entretanto, na “Introdução” à referida ENM é salientado que as Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores apresentam importantes mais-valias estratégicas e potencial desenvolvimento de actividades económicas relacionadas com o mar.


Ora, neste contexto, parece oportuno referir que entre as mais-valias dos Açores, as da ilha do Faial se apresentam particularmente relevantes. Com efeito, a própria história da ilha acaba por resultar da dupla vantagem oferecida por uma ampla e abrigada baía colocada estrategicamente no meio do Atlântico Norte.


Assim, já nos séculos XVI e XVII foi importante o papel do porto da Horta no apoio às frotas da Índia e do Brasil, apoio que depois se alargou à navegação do Atlântico Norte e já nos séculos XVIII e XIX, às próprias frotas locais que transportavam urzela, laranjas e vinho, tanto para a Europa como para as Índias Ocidentais e os Estados Unidos da América. E foi também por ser seguro que, durante o século XIX, se tornou no maior porto baleeiro do mundo, ao acolher a grande frota baleeira dos Estados Unidos da América.


Depois veio a construção da doca, dando aí melhores condições aos homens do mar e iniciou-se o ciclo do carvão, com o estabelecimento de grandes depósitos, que estiveram sempre muito activos até ao aparecimento do óleo que ditou o encerramento dos armazéns da cidade já depois da Primeira Grande Guerra.


Entretanto tinham sido amarrados nas baías da Horta e de Porto Pim cabos submarinos para ligações telegráficas entre a Europa e a América, pertencentes a companhias de nacionalidades inglesa, alemã e americana e que trouxeram ao Faial centenas de jovens operadores, uma grande parte dos quais acabou por casar e fixar-se no meio. Mais tarde, já nos anos 30, foram os excitantes anos da aviação com a competição para a Travessia do Atlântico, com escala na abrigada baía da Horta. Por aqui estiveram em ensaios porfiados a americana Pan American com os seus famosos Clippers, os alemães da Lufthansa, que usavam catapultas na descolagem dos hidros, mais os ingleses da Imperial Eagle e os franceses da Air France. Embora os alemães tivessem conseguido fazer viagens experimentais com sucesso, foram os americanos os vencedores desta extraordinária corrida e mantiveram voos normais entre 1939 e 1945, ano em que acabou a Segunda Grande Guerra.


Ao mesmo tempo, o porto da Horta, tal como já acontecera na Grande Guerra de 1914-1918, serviu de Base Naval para a Home Fleet prestando um inestimável apoio na guerra anti-submarina e, portanto, ajudando os Aliados a ganhar a guerra. Evidentemente, veio depois o declínio para o porto da Horta, que não pôde acompanhar as mudanças operadas com o fim do carvão e a opção pelos óleos, o que acabou também por causar o fecho das suas famosas oficinas de reparações navais.


Mas a seguir chegaram os grandes rebocadores holandeses da companhia L. Smit’s, que passaram a fazer base no porto, à escuta dos pedidos de socorro de navios em dificuldades no Atlântico.


Por fim, a pouco e pouco, começaram a aparecer no porto as velas de pequenos iates, que o vulgo apelidava, apropriadamente, de “aventureiros” e que neste último ano representaram perto de 1300 entradas, tornando a Marina da Horta numa das mais frequentadas a nível europeu e mesmo mundial, como marina de passagem. Toda esta preferência pelo porto da Horta representa, acima de tudo, o reconhecimento prático das suas condições estratégicas e de segurança.


Porém, a melhor prenda dos últimos anos acabou por ser a escolha da Horta para sede do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, centro de investigações reconhecido internacionalmente como excelente e por onde têm passado investigadores e estudantes de pós-graduação oriundos de todo o mundo. Hoje, com novas e amplas instalações prontas a ser inauguradas e que vêm proporcionar muito melhores condições ao seu trabalho, são de esperar outros desenvolvimentos.


É por isso que nesta comemoração do Dia nacional do Mar, mais do que a evocação do passado, devemos preparar o futuro. E parece haver razões para pensar que, como sempre, o futuro da Horta ficará intimamente ligado com o Mar.

Mário Frayão



Colaboradores:

Fotografia da Capa: Jorge Góis
Crónica: Mário Frayão
Música: Pedro Monteiro
Cinema: Aurora Ribeiro

Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Tomás Silva
Literatura: Ilídia Quadrado
Ciência e Ambiente: Fernando Tempera, Íris Sampaio, Pedro Ribeiro


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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Edição nº25



Crónica

Faial Filmes Fest


Tenho uma amiga que me pergunta frequentemente:
então, como é que está a correr? - referindo-se ao processo
de preparação do V Faial Filmes Fest – Festival de Curtas das
Ilhas. Respondo-lhe invariavelmente, com uma espécie de
suspiro: não sei. Acontece o discernimento acanhar-se diante
do emaranhado de coisas para ontem, coisinhas miudinhas e
outras demasiado grandes, telefonemas, emails, cartas, fortunas,
revezes… e até da matreira sorte.
A construção do Festival de Curtas das Ilhas processa-se assim,
entre o caos e a harmonia, entre a razão e o coração, com
uma pitada de sorte; entre a vontade de ultrapassar as
contrariedades e a raiva delas, feita energia para encontrar
soluções e enfrentar os desafios em frente, mas sobretudo
com a alegria de ver as peças encaixarem-se, por força do
trabalho, do querer e do crer – nosso e dos que connosco
partilham este projecto, apoiando-o financeiramente ou
facilitando procedimentos e abrindo caminhos.
O Faial Filmes Fest 2009 abre com uma declaração da força
da conjugação de todos esses factores: um ano depois do
desafio avançado por um dos oradores da homenagem a Dias
de Melo (que deu o arranque à edição de 2008) aos realizadores
presentes, eis que um documentário sobre o escritor açoriano
nos vem “parar às mãos” e assentar como uma luva de plica
mágica na primeira Sessão Especial da edição deste ano! Não
podíamos desejar melhor prenúncio para o arranque do Festival
e ele repercute-se nos dias seguintes, no expressivo conjunto
de filmes que compõem as sessões especiais e de competição.
Nas 45 curtas-metragens da Selecção Oficial contam-se, além
dos nacionais (incluindo Açores e Madeira), pela primeira vez,
filmes das Canárias e de Cabo Verde, que responderam à
abertura do Festival às cinematografias da Macaronésia – esse
conjunto de realidades insulares paradoxalmente tão disperso
de si mesmo e que pretendemos reunir no cinema, conferindo
maior dimensão ao enunciado “Festival de Curtas das Ilhas”.
Ao longo de 3 dias estarão em exibição as mais recentes
produções nacionais e regionais de curta-metragem; filmes
premiados em festivais de cinema de renome e outros que
premeiam a criatividade.
Fora de Competição, o FFF’09 apresenta um conjunto de 7
filmes que estabelece uma ponte entre os primeiros passos do
“cinema novo” português e o cinema da nova geração de
cineastas nacionais, com uma passagem pelo FFF’08 e um
pequeno segredo a ser desvendado ao vivo, no Cine Teatro
Faialense.
Por tudo isto e muito mais, a 5ª edição do Faial Filmes Fest
anuncia-se mais rica em diversidade e conteúdo, sólida e
coerente - e mais dedicada ao público e ao próprio Cinema.
Agora sim, podemos afirmar: está tudo a postos. Venham as
pessoas – muitas pessoas – e a festa do Cinema no Faial ficará
completa!
Renata Lima

Colaboradores:
Ilustração: Isabel Sampaio
Crónica: Renata Lima
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Eduardo Carqueijeiro, Marco Silva
Ciência e Ambiente: Dina Dowling, Hugo Diogo e Pedro Monteiro
Gatafunhos: Tomás Silva

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