segunda-feira, 25 de julho de 2011

Edição nº64


Editorial

Fechamos a terceira temporada do Fazendo com os resultados do concurso ‘Fazes?’, promovido em parceria com a ES Manuel de Arriaga. Mais umas vez contámos com uma excelente participação dos alunos e recebemos um variadíssimo leque de trabalhos. Da fotografia mais simples a montagens mais ou menos elaboradas, da colagem ao desenho, vários géneros de trabalhos gráficos e uma surpreendente dose de propostas de cariz interventivo espelham a diversidade de abordagens que nos foram submetidas.

Com este concurso pretendemos também criar uma janela entre a escola e o resto da comunidade ao dar a oportunidade aos estudantes a criar trabalhos que poderão saltar para fora do âmbito escolar. Neste sentido, para além do trabalho vencedor patente na capa desta edição, são seleccionados alguns trabalhos que serão expostos em vários outdoors espalhados pela cidade.Envolver, estimular, discutir, promover. São estas as linhas que têm orientado o Fazendo ao longo dos últimos 3 anos e que ambicionamos continuar a seguir no futuro. Sempre com mais pessoas, mais ideias, maior diversidade e maior dinamismo. Um grande bem haja a todos os colaboraram neste projecto, a todos os que nos contactaram com ideias e propostas e que nos abordam com palavras de estímulo ou de crítica e que nos ajudaram a melhorar. O Fazendo é um organismo colectivo e dinâmico que vive da envolvimento e colaboração de todas as partes.

O nosso e-mail é o vai.se.fazendo@gmail.com, os sites fazendofazendo.blogspot.com e facebook.com/assoc.fazendo, o telefone 967567254 e cremos que não será difícil encontrar-nos num qualquer ponto da cidade da Horta. Até Setembro.

Fazendo


Colaboradores:



Capa: Rui Morisson
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia, Hortaludus

Teatro e Cinema: Luís São Bento
Literatura: Paulo Mendes
Ciência: Carla Dâmaso
Gatafunhos: Tomás Silva



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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Edição nº63



Crónica
Devagar que estou com pressa
A história de uma viagem para ler sem pressa


Sol. Chuva. Sol. Chuva. Sol. E mais uma volta à ilha. Velocidade média: 27,5 km/h, alternada entre 15 km/h, em subidas, e 40 km/h, em descidas. Tempo de viagem: duas horas e meia, mas poderia ter sido um pouco menos, não fosse aquele tractor que calmamente desfilou, à nossa frente, durante um terço do caminho. Meio de transporte: veículo apelidado de “Meireles”, com grave problema de ejecção e totalmente abstraído de conceitos como “aceleração” e/ou “velocidade”. Viajantes: três jovens raparigas, para quem, o facto de habitarem num planeta redondo, com vulcões, não passava de uma lembrança remota.

No meio do Atlântico, há um lugar.

Um lugar que, para alguns é a casa, para outros um porto de paragem e para outros, ainda, um parêntesis na sua vida. Esse lugar está coberto por um pano verde, malhado às vacas, pontilhado por hortênsias e rematado de areias pretas que, de tão negras, iluminam o ciano do mar. Nesse mesmo lugar, há vulcões. Vulcões vivos. Sim, porque os geólogos disseram- -nos que os vulcões não morrem, só adormecem, e que o seu cume pode abater abrindo uma caldeira como esta, no cimo do pano — uma provocadora de cartasses, um elogio à natureza e, ao que chamamos, de forma tão abstracta, paisagem. No alto dessa caldeira, há uma linha. Um limbo percorrível que separa esse elogio de todo o resto.

Nesse todo o resto, a interromperem um horizonte não horizontal mas sim curvo como o mundo, vêem-se estendidas outras ilhas que são outros lugares com outras vidas, outras vacas e outros vulcões. Num desses vulcões cresceu, no seu topo, um piquinho. Um dia, esse piquinho passou a ser o nosso o objectivo. Subimos, então. Subimos. Subimos. Até que, num momento, parámos. Olhámos para trás. E, de um amigo coberto de branco, escutámos: “olhem a ilha de bruma”. De facto, lá estava ela, à nossa frente, esparramada em forma de tartaruga, protegida por uma carapaça de nuvens densas, compactas... E o sol se pôs atrás da tartaruga. Veio a noite. O vento e o frio.

A mãe natureza no seu estado puro, duro e líquido. Fingimos que dormimos. Acordámos. Na madrugada, o sol surgiu por cima das nuvens. Abaixo de nós, um manto branco intransponível a olho nu. E ali estávamos nós, a cumprir as fantasias de uma infância onde sonhávamos andar sobre as nuvens. Mas, nas nuvens não se anda, quanto muito atravessa-se; e uma inocente imagem não é a natureza. E lá está: o frio queima, a humidade molha e o vento dói. A natureza dilacera-nos e nós nos sentimos vivos. Vivos, vamos à procura de outras ilhas, à procura de outros lugares, de outras pessoas. Em frente, do outro lado do canal, uma espinha dorsal, emergida do mar, transforma-se num novo objectivo. Fez-se planos mas, no erro do plano, a surpresa aconteceu. Então, entre o cinzento do céu e verde da terra, aprendemos sobre os vulcões, os sismos e os tsunamis. De repente, o tempo imensurável torna-se curto e temos de voltar à ilha de bruma.

Entre as ondas, a feliz coincidência: o reencontro entre pessoas. Desse reencontro, um convite. Desse convite, um jantar. E, no fim, num extasiante curto espaço de tempo, lá estávamos todos nós sentados à mesa de uma casa, neste lugar, no meio do Atlântico.

Sara Orsi





Colaboradores:


Capa: Aurora Ribeiro, Jácome Armas, Tomás Silva
Arquitectura e Artes Plásticas: OMA
Literatura: Miguel Machete
Ciência: Sílvia Lino e PNF
Gatafunhos: Tomás Silva


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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Edição nº62



Crónica

Correm duas histórias convencionais sobre os Açores: uma história de fascínio e uma história de evasão. A primeira tende a ser contada pelos forasteiros, enquanto a segunda pertence aos que nasceram no arquipélago ou para aí foram desterrados. São perspectivas complementares em vários sentidos.

O fascínio exerce-se de modo subtil: é preciso romper através da bruma que forra estas ilhas e as afasta da imaginação dos viajantes que anseiam por destinos mais exóticos; já a segunda impressão é opressiva e não encerra nenhum mistério: o espaço insular é limitado e de difícil acesso, o que faz com que todos os seus habitantes acabem por saber uns dos outros, tornando difícil viver a magia do anonimato proporcionada pelas grandes cidades.

Ambos os movimentos têm conhecido desvios e elipses interessantes, motivados pela chegada de novos personagens — dos velejadores, aos professores, investigadores e operadores turísticos, passando pelos intelectuais e artistas estrangeiros de que nos fala Vicente Jorge Silva, pelos comerciantes chineses e ciganos, ou ainda pelas famílias insulares que se foram espalhando por vários pontos do arquipélago. Pode ser que um dia a diversificação dos pontos de vista acabe por dissolver a impressão de complementaridade. Em todo o caso, essa complementaridade traduz um genuíno problema antropológico que se resume da seguinte forma: que experiência se enquadra na formidável paisagem deste arquipélago?

O fascínio de Raul Brandão pelos habitantes do Corvo advinha precisamente da procura de uma forma de vida que encaixasse ali, na mais extrema das ilhas, e que pudesse fazer escola, fundar uma civilização. Era também esse o propósito das dissertações de Nemésio sobre a «Açorianidade», que todavia não deixam de ser sensíveis à questão — na verdade, recorrente — do «emparedamento do ilhéu».

O próprio Brandão cedo compreendeu as limitações duma antropologia insular («todos os dias os mesmos gestos e repetindo sempre a mesma meia dúzia de palavras até à morte»), e não é por acaso que o seu olhar se desvia tantas vezes para o mar e para o céu, para os grandes relevos das ilhas, para os recortes das suas costas, para as falésias cobertas de vegetação. Dir--se-ia que naturalismo e etnografia constituem mundos separados n’As Ilhas Desconhecidas.

De facto, não é fácil conjugar as duas coisas quando se recorre a uma visão empedernida e pontualmente romantizada do autóctone, como a que tem marcado a antropologia açoriana.

Por seu turno, o nexo entre espaços insulares e civilizações alternativas (ou desconhecidas) constitui um tema persistente do imaginário ocidental moderno, impedindo o reconhecimento de que a verdadeira vocação das ilhas assenta sobretudo na contra--civilização, no que não pode fazer escola. Voltamos portanto ao ponto de partida: que formas de vida se ajustam a este cenário que sejam capazes de suplantar as histórias complementares de atracção e repulsa? Em jeito de resposta, apenas consigo evocar o relato de um amigo que passou um verão nas fajãs da mítica ilha das Flores, com uma tenda por abrigo e amoras silvestres por alimento, qual Heraclito reencarnado. Objectar-se-á que também isto é romantizar, e que tais experiências são sobretudo um produto da interioridade, podendo ser vividas em qualquer parte do mundo — mas essa seria uma objecção banal, por não reconhecer que o romantismo se alimenta sempre de uma qualquer miséria, e, principalmente, por descurar a verdura pujante das fajãs, a agitação curiosa do mar, o negro retorcido das encostas vulcânicas, o amplo côncavo das caldeiras, enfim, a tremenda complexidade do céu açoriano, feito de várias camadas de nuvens que se entreabrem de quando em vez para o azul.

Este é o caminho para uma nova antropologia dos Açores.


Daniel Seabra Lopes




Colaboradores:

Capa: Daniel Seabra Lopes
Arquitectura e Artes Plásticas, Gatafunhos: Tomás Melo
Cinema e Teatro: Miguel Machete
Literatura: João Carlos Fraga
Ciência: Inês Martins e PNF
Lacunas: Cristina Lourido e Mário Moniz







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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Concurso "Fazes?"



1. O Fazendo está a promover um concurso para os alunos da Escola Secundária Manuel de Arriaga.

2. Podem participar no concurso todos os alunos dessa escola, independentemente da idade ou ano que frequentem.

3. Objectivo: encontrar a melhor capa para o Jornal, feita por um aluno.

4. Cada concorrente poderá apresentar um máximo de dois trabalhos.

5. Os trabalhos a apresentar devem cumprir as seguintes
normas:

Tema: livre
Técnica: livre (ilustração, fotografia, pintura, desenho, arte digital, colagem, etc)
Dimensões: tamanho único aceite: 21 x 30 cm. No caso de trabalhos em formato digital, para além das dimensões estipuladas o ficheiro deve apresentar uma resolução de 300 dpi.
Cor: são aceites trabalhos a preto e branco e a cores.

6. A data limite de entrega dos trabalhos é dia 15 de Junho.

7. Como entregar: Os trabalhos que não estejam num suporte digital devem ser entregues na reprografia da Escola. As ilustrações em formato digital devem ser enviados para o endereço electrónico do Jornal (vai.se.fazendo@gmail.com)

8. Prémios:

1º Prémio:
Publicação da Capa Vencedora
Prémio monetário ZON: 100 eur
Vale de Compras Telégrapho: 50 eur
Desconto 25% em carta de condução (carro ou mota) na Escola de Condução Atlântida

2º Prémio
Vale de Compras Telégrapho: 50 eur
Mochila Hurley, na Tabu

3º Prémio
Vale de Compras Telégrapho: 20eur
Acessório de Moda na Kosmos

9. A decisão do júri será mantida em segredo até à saída do Jornal que publicará as obras dos premiados, assim anunciando os vencedores do concurso.

10. Direitos de publicação. As obras premiadas ficarão na posse da Associação Cultural Fazendo. Ao concorrer, todos os autores estão a autorizar a Associação Cultural Fazendo a reproduzir as suas obras e a utilizá-las em publicações ou eventos futuros.

11. Devolução dos trabalhos não premiados. Os trabalhos não premiados podem ser recolhidos pelos autores na reprografia da escola, a partir de uma semana após a divulgação dos premiados. Esta cláusula não se aplica a trabalhos entregues em formato digital.

12. O júri terá a seguinte composição:
a) Um representante da Direcção do Jornal Fazendo
b) Um colaborador da Página de Artes Plásticas do Jornal Fazendo
c) Um representante do Conselho Executivo da ESMA
d) Um professor do Departamento de Artes da ESMA

13. O júri, para além dos prémios atribuídos aos trabalhos que considerar de maior qualidade poderá atribuir menções honrosas que, no entanto não vincularão o jornal à respectiva publicação.

14.O júri pode deliberar não atribuir qualquer dos prémios no caso de falta de qualidade das obras em concurso.

15. Os casos omissos ou divergências na interpretação do presente regulamento serão solucionadas pelo júri.

16. Das decisões do Júri não haverá recurso.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Edição nº61





Crónica
Associação Megafone 5
Quando, em Janeiro de 2009, João Aguardela faleceu, não deixou exactamente uma obra, mas várias. Deixou todas as que se conhecem, sendo as mais visíveis e audíveis as que resultam da vida dos Sitiados, Megafone e A Naifa, mas deixou uma outra que raramente acorre à lembrança até dos mais atentos: a que não chegou a ser feita.

Por isso se juntaram diversas pessoas sob a designação Megafone 5. O projecto musical Megafone, com João Aguardela a solo a vestir músicas portuguesas oriundas de recolhas etnográficas com roupas electrónicas modernas, mais de sábado à noite do que domingueiras, deixou quatro álbuns gravados. O nosso trabalho seria o quinto disco simbólico, passe a imodéstia da ambição.

A Associação Megafone 5, não negando naturalmente a presença no seu código genético de uma vocação para a homenagem, nasce também do desejo de adivinhar o futuro. Nasce, entre amigos de João Aguardela e admiradores da forma como encarava e manuseava a música de raiz portuguesa, da recusa em aceitar que um legado é como uma pomposa condecoração que se pendura na parede para acumular anos e pó.

Não foi preciso muito para que, escassos dias depois de João Aguardela ter partido para a sua última digressão, rumo ao céu ou o que estiver lá desse lado, várias pessoas terem informalmente começado a partilhar a ideia de que havia ainda muito a fazer. Havia que celebrar, homenagear e divulgar mais de 20 anos de trabalho do rapaz João Miguel Antunes Aguardela. Mas havia, sobretudo, que fazer algo para que esta música portuguesa que o movia continuasse a escrever-se e aventurar-se e recriar-se (em ambos os sentidos).

Presente, na génese da associação, esteve sempre a vontade de encarar o futuro. E, para fazê--lo, nada melhor que resolver o passado com uma celebração em grande, em festa, com amigos, admiradores, camaradas de ofício, melómanos anónimos, tudo quanto coubesse no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Foi o que aconteceu a 4 de Novembro de 2009, com actuações ao vivo dos Gaiteiros de Lisboa, Ó’Questrada, Dead Combo e A Naifa. E o que aí aconteceu foi também o nascimento público de uma empreitada maior e mais ambiciosa - os Prémios Megafone. Bem como o site www.aguardela.com, com tudo o que às actividades da associação diz respeito, mais a obra completa do Megafone para gozo popular gratuito e sem pecado.

Os Prémios Megafone foram, desde o embrião da ideia, encarados com os olhos com que João Aguardela via a música dita tradicional. São prémios que visam estimular a transformação, a mudança, a passagem de testemunho entre pessoas e gerações, o encontro do passado com as crescentes possibilidades do presente e do futuro, a nova música dita tradicional. Música Para Uma Nova Tradição, como se lê na assinatura da própria associação. E são, também como tanta dessa música, colaborativos, quase cooperativos, sem meios mais grandiosos do que a disponibilidade e a generosidade de um sem número de pessoas que acreditam na transmissão e na partilha.

Dividida entre Prémio Megafone Música e Prémio Megafone Missão, o primeiro para reconhecer e estimular quem faz nova música, o segundo para fazer o mesmo a quem potencia e acrescenta valor à nova música que se faz, os Prémios Megafone foram desenvolvidos em menos de um ano, chegando ao palco do Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém a 17 de Outubro de 2010. Aí foram anunciados, como finalistas do Prémio Megafone Música, os Galandum Galundaina, o Experimentar Na M’Incomoda e os Bandarra. Do lado do Prémio Megafone Missão, o realizador Tiago Pereira, o festival Bons Sons e a associação cultural D’Orfeu.

A primeira edição dos Prémios Megafone, a que o mágico projecto Foge Foge Bandido, de Manuel Cruz (ex-Ornatos Violeta), se associou com uma das suas raras apresentações ao vivo, coroou os Galandum Galundaina e Tiago Pereira. Os primeiros porque fazem viver tudo o que é mirandês para lá do seu espaço e do seu tempo. O segundo, porque coloca em imagens com personalidade única os sons desta espécie de rectângulo chamado Portugal (já depois de vencer o Prémio Megafone Missão, Tiago Pereira criou o projecto A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, profícua recolha em video e divulgação online de músicos e colectivos que dão presente e futuro à música tradicional).

Apesar de dependente de todas as vidas de todas as pessoas que a integram e que para ela contribuem com graus raros de desinteressada entrega, a Associação Megafone 5 mantém intacto o propósito com que viu a luz pela primeira vez. E é por isso que, anuncie-se agora, os Prémios Megafone regressam em 2012, para distinguir e estimular quem partilha a visão de João Aguardela e a partir dela constrói peças que intervêm nas nossas vidas.

Por outras palavras, arte.

Pedro Gonçalves - Associação Megafone 5


Colaboradores:

Capa: Ana Nobre
Arquitectura e Artes Plásticas: Ana Correia
Ciência: PNF
Gatafunhos: Tomás Melo


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terça-feira, 17 de maio de 2011

Edição nº 60



Crónica
A adesão aos princípios que assumem a necessidade e responsabilidade de contribuir para uma resposta colectiva às necessidades das pessoas é uma prática que, em teoria, poucos admitem não acolher ou respeitar. Mas, da teoria à prática “vai um tiro de canhão”.

A forma como o tema “Estado social” é tratado no nosso país, traz consigo uma carga avassaladora de cinismo. Uns juram pela sua mãezinha que é a sua profissão de fé, enquanto, na prática, o vão destruindo. Outros não são contra, mas quanto menos melhor. É a velha máxima da diferença entre “dar na cabeça” ou “na cabeça dar”. Em boa verdade, o conceito de Estado social, ou providência, é a negação da forma organizativa duma sociedade liberal. Defender o Estado social com políticas liberais é “querer estar bem com Deus e com o Diabo”.

O Estado social assenta em princípios que dão uma resposta colectiva às necessidades de cada uma das pessoas. O sistema liberal professa o individualismo em detrimento da solidariedade. O Estado social tem todo o seu enfoque nas pessoas, no seu direito à saúde, à educação, ao trabalho. O sistema liberal alimenta--se do economicismo, na acumulação do capital, na diferença pelo poder do dinheiro.

O conceito europeu de olhar para os que nada têm como uma obrigação do Estado e não apenas como uma mão caridosa estendida pelas organizações bem-intencionadas da sociedade civil pressupõe um aparelho de Estado bem organizado e uma economia saudável. Nos tempos que correm, nenhuma destas premissas é válida, não só em Portugal, mas na generalidade dos países europeus.

Surge então a necessidade de mudança. E, novamente, todos falam do mesmo, mas sem explicar bem o que querem mudar. Aplica-se, então a célebre frase: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

Porém, o que permanece igual é o caminho trilhado no sentido da progressiva destruição do Estado social, e o que muda é o aumento das restrições e dos cortes orçamentais na saúde, no ensino e na protecção social.

Todo um princípio económico básico, essencial à existência do Estado social está pervertido. O sistema financeiro deverá ser um meio de apoio ao bom funcionamento da economia, para que esta possa estar ao serviço do bem-estar das pessoas. O sistema liberal “espreme” as pessoas para que a economia esteja ao serviço da especulação financeira.

Os teóricos liberais defendem a todo o custo o crescimento económico (leia- -se: concentração do poder económico). Baseiam-se nas privatizações e não hesitam em recorrer à entrega, a um par de mãos, aquilo que é de todas as pessoas, sem qualquer excepção, incluindo a privatização da saúde, do ensino, e de bens essenciais como a água, para que quem tenha poder financeiro possa pagar e, assim, com as migalhas restantes, providenciar cuidados de saúde mínimos e o ensino indispensável aos pobrezinhos (“vamos brincar à caridadezinha”). Defendem que saúde e ensino para todos é uma utopia. “O Estado não tem receitas que possam suportar essas despesas!”. Esquecem que melhor para alguns e pior para outros é discriminação e que a opulência, desses alguns, é a carência destes outros.

É uma falsa questão a falta de recursos do Estado para garantir a diminuição das disparidades sociais causadas pela sociedade capitalista. É, sim, uma questão de prioridades e de diversificação das receitas. O Estado não pode ser alimentado exclusivamente pela contribuição dos rendimentos de trabalho. Será aceitável a existência de fortunas acumuladas através de mais-valias imobiliárias e transacções bolsistas que não são tocadas pelo fisco? Tudo - o presente e o futuro do Estado social - é uma opção política.

Com uma forte tributação sobre os dividendos não reinvestidos, distribuídos aos accionistas do sistema financeiro, e não “esquecendo” os paraísos fiscais, para onde “voam” milhões de euros, podem arrecadar- -se recursos que, aliados à erradicação dos gastos despropositados e sem controlo, dotam o Estado dos recursos necessários.

É criminoso para o Estado social que, a par da subordinação ao sistema financeiro, se gaste tantos milhões com a compra de dois submarinos, considerados “um luxo supérfluo” pelos “patrões” da NATO.
Há uma grande ameaça sobre o Estado social, que é incentivada pelos privados. Inculca-se na Opinião Pública a ideia de que os serviços privados de Saúde são mais eficientes e, em simultâneo, desinveste-se no sector público. Caminhamos para o sistema que desvaloriza os cuidados de Saúde básicos aos cidadãos com menos recursos, sistema que outros países começam, finalmente, a dar a ideia de querer abandonar. Queremos retomar o que outros abandonam?

Estamos a um passo de já não se poder considerar o que existe como Estado social, e, por isso, é urgente que se mudem as prioridades, porque o fim do Estado social europeu, como quer a actual chanceler alemã, Angela Merkel, seria o colapso da União Europeia.


Mário Moniz


Colaboradores:

Capa: Eugénia Rufino
Arquitectura e Artes Plásticas: Paulo Gabriel
Cinema e Teatro: Tiago Vouga e Victor Rui Dores
Literatura: Eduíno de Jesus
Ciência: PNF e Sílvia Lino
Gatafunhos: Tomás Melo


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terça-feira, 3 de maio de 2011

Edição nº59



Crónica

Os Encontros Filosóficos, organizados pelo grupo de filosofia da Escola Secundária Manuel de Arriaga, surgiram há dezoito anos, com o objectivo de fazer os alunos do 12º ano questionarem-se acerca do mundo que os rodeia e que os recebe depois de saírem da escola. Com o passar do tempo, e com o surgimento da disciplina de Área de Projecto (AP), este passou a ser um espaço de apresentação dos trabalhos práticos desenvolvidos ao longo do ano lectivo, contando ainda com uma série de outras acções que se desenrolam paralelamente, entre workshops, palestras e debates, que pretendem envolver toda a comunidade na reflexão filosófica e na construção da sociedade, não apenas as pessoas directamente relacionadas com o meio escolar.

Este ano subordinam-se ao tema “Educar pelas Artes”, pelo que teremos ao longo de uma semana actividades relacionadas com cinema, teatro, literatura, fotografia, desenho, música e dança.

No que toca a AP, cujas apresentações serão feitas entre os dias 2 e 5, este ano vamos assistir a trinta trabalhos, divididos pelas quatro turmas do 12º ano e somando a participação de cerca de uma centena de alunos, trabalhando individualmente ou em grupos.

Sobre os trabalhos podemos mencionar que contam com os mais variados temas. Enquanto alguns se questionaram sobre o que fazer “depois do 12º ano?”, outros preferiram debater “os problemas da adolescência”; enquanto uns reflectem se afinal “aqui há crise?” ou não, outros optaram pela “cerveja” ou pela “Atlântida”.

Olhando o mundo que (n)os rodeia surgiram trabalhos de âmbito social, como “um invisual na sociedade”, “a interacção das crianças com Síndrome de Asperger”, “os deficientes motores e a sua qualidade de vida”, ou “peso certo em quilos” e “viver com a Diabetes”. Por alguns dos alunos de Ciências foram elaboradas investigações de carácter mais técnico, como sejam a “linguagem corporal e as microexpressões faciais”, “genética: transmissão de características e mutações?”, “clonagem de plantas” e “holografia e vanguarda tecnológica”, com especial destaque para este último por contar com a presença do Professor Pedro Pombo, da Universidade de Aveiro, que fará uma palestra sobre o tema.

No âmbito da ecologia iremos assistir à “criação de uma estufa e prática de agricultura biológica”, assim como a três projectos relacionados com as “energias renováveis”, sendo um deles sobre embarcações movidas a estas energias e outro acerca de “o automóvel e o biodiesel”. Recordando mais uma vez o tema deste ano, quatro apresentações debruçar-se-ão sobre a Música, abrangendo as temáticas da sua “influência no Homem” e “na Educação e na Saúde”, dos “Blues” e de “qual a sua realidade” no Faial; haverá ainda um trabalho sobre o “cinema”, um sobre a “publicidade” e o “renascer da cor”, um desfile de moda. Tendo em conta a nossa realidade ímpar e a importância de termos quem nos visite, o “turismo no Faial” e “uma ilha bestial por um preço especial” serão outros dois trabalhos apresentados. E porque o património e o passado também são importantes teremos uma pesquisa sobre “as térmitas” e outra sobre “história e urbanismo” na nossa cidade.

Qualquer um deles pretende incutir nos estudantes um espírito crítico para com o mundo à sua volta, para que cada um possa ser um cidadão atento e consciente, possuidor de valores que permitam desenvolver a nossa sociedade e fazer o nosso país sair da letargia e da crise em que se encontra.

Esperemos também poder contar com a maior audiência possível e com a presença de todos quantos queiram assistir a este evento, pois se a escola tem o dever de formar a comunidade, também a comunidade deve ter um papel activo na escola, e se a escola tem o dever de preparar os alunos para a sua entrada na sociedade, também a sociedade deve estar apta a recebê-los.


Tiago Silva - Aluno na ESMA

Colaboradores:

Capa: Pedro Escobar
Arquitectura e Artes Plásticas: Lia Goulart
Texto sobre capa: André N. de Melo
Ciência: PNF
Gatafunhos: Tomás Melo

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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Edição nº58




Entrevista

Carlos Riley fala ao Fazendo sobre o Colóquio “Os Açores, a I Guerra Mundial e a República Portuguesa no Contexto Internacional” que decorreu no mês de Abril em três cidades açorianas

Porque é que este é um Colóquio Internacional?
O que lhe dá o epíteto de internacional é o facto de ter tido a participação de conferencistas estrangeiros. O colóquio é ainda internacional porque entendemos que uma das iniciativas produzidas pela Direcção Regional da Cultura no âmbito do Centenário da República devia de alguma forma procurar sublinhar qual tinha sido a dimensão internacional do papel do Arquipélago dos Açores no âmbito da Primeira República, ou seja, o que é que os Açores teriam acrescentado à política externa portuguesa da época, já que é por ocasião da I Grande Guerra que se dá a emergência daquilo que é justamente depois considerado a importância estratégica dos Açores no séc. XX. Quando se fala dos Açores e de Estratégia a maior parte das pessoas têm quase, desculpe-me a expressão, uma espécie de reflexo de Pavlov, é um reflexo imediato: fala-se logo da Base das Lages e da II Guerra Mundial. Ora de facto aquilo que é a pedra de toque, o que marca o início do que virá a ser o papel que os Açores desempenham depois por via da Base das Lages, acontece justamente durante a I Guerra Mundial.
A partir de finais de 1917/18, há a dita instalação de uma base anglo-americana que só é desfeita e desmantelada em inícios de 1919. Aquele conceito das chamadas facilidades militares que são concedidas pelo Governo da República Portuguesa aos americanos nos Açores, não é inaugurado nem começa na II Guerra Mundial, mas sim na I Guerra. Em virtude deste acontecimento e deste significado estratégico, achámos que tinha quase como um efeito pedagógico celebrarmos ou promovermos o colóquio. Chamámos-lhe internacional porque procurávamos vincar este papel dos Açores na política externa portuguesa da época. E portanto o colóquio é internacional não só pelo facto de ter conferencistas estrangeiros como por causa do facto de os Açores serem a grande carta de trunfo que o Governo da República Portuguesa tem no âmbito das negociações internacionais. Os Açores e também as Colónias, mas são sobretudo os Açores que fazem com que Portugal tenha uma relevância estratégica importante na política externa dessa altura.

Estes colóquios foram planeados para algum tipo de público específico?
Não havia nenhum segmento de público em particular. O Colóquio funciona em duas dimensões que eu já agora gostaria de apresentar: uma é o momento das conferências e das sessões do Colóquio propriamente ditas. São sempre abertas ao público, aparece quem quer e obviamente não cabe nunca aos organizadores e aos promotores da iniciativa, estarem, passe a expressão, praticamente a encostarem uma pistola às cabeças das pessoas para irem assistir. Mas por outro lado há um segundo momento que eu queria aqui vincar que é o seguinte: o Colóquio vai ser publicado em actas e portanto, independentemente da maior ou menor adesão do público em termos de assistência às sessões do colóquio (obviamente ficaríamos sempre contentíssimos se os auditórios tivessem enchentes), todo o contributo dos conferencistas e doutros participantes com comunicações vai ficar fixado e cristalizado num livro em papel. Dadas as características do colóquio, haverá gente que possa estar mais sensível a este tipo de coisas que aqui se fala, que serão, enfim, os estudantes universitários, os estudantes dos últimos anos do liceu, o público adulto e culto, em particular. Mas penso que a maneira mais correcta de responder à sua pergunta é com uma redundância: o público-alvo deste colóquio era o público.

O Colóquio aconteceu em três cidades açorianas. Em cada uma delas houve uma sessão de conferências, porquê a escolha de um painel diferente para cada ilha?
Como pode ver pelo programa do colóquio, cada um dos painéis abordava temas diferentes. O de Angra do Heroísmo centrou-se nas questões ligadas à I Guerra Mundial, o de Ponta Delgada, relacionou-se mais com o Regionalismo e com questões mais internas da sociedade açoriana: o que é que eram os Açores e a sociedade açoriana no período da Primeira República (de 1910 a 1926). E sobretudo o fenómeno político, cultural e social, da emergência do movimento regionalista, que se dá nos anos 20 e que tem uma expressão muito vincada em termos ideológicos e das suas manifestações em S. Miguel (embora também a tivesse noutras ilhas). Portanto pareceu-nos que, por uma questão de casting, este tema seria uma sessão mais indicada para Ponta Delgada. Por outro lado, tudo o que tivesse a ver com uma dimensão mais internacional, com o tema dos Açores no contexto da política externa portuguesa, faria mais sentido fazer aqui na Horta, pensando no ambiente muito cosmopolita, muito internacional que teve a ilha do Faial e a cidade da Horta no período da Primeira República em virtude da instalação dos Cabos Submarinos a que depois se sucede, embora já num período posterior, a amaragem dos Clippers nos finais da década de 30 e etc. A opção de se ter optado por uma estrutura tripolar advém da preocupação descentralizadora de procurar levar este colóquio ao maior número possível de pessoas.

A acompanhar a sessão do Colóquio na cidade da Horta, é inaugurada uma exposição intitulada Açores 1917/1918: Crónica de um ano americano. A ilha do Faial teve alguma relevância no decorrer dos acontecimentos que marcam esse ano?
Essa exposição é um encore, já tinha sido inaugurada aqui na Horta em Novembro de 2008. É uma iniciativa da Fundação Luso-Americana para o desenvolvimento e na altura foi feita na sequência de uma outra que a mesma Fundação promoveu no verão de 2008 em Ponta Delgada (o 1º Fórum Açoriano de Franklin Delano Roosevelt).
A exposição não só procura cobrir a passagem de Roosevelt aqui pelos Açores, numa viagem que ele fez a caminho da Europa no Verão de 1918, como sobretudo procura evidenciar aquilo que lhe falei há pouco e que era a instalação da base naval americana em Ponta Delgada. Dentro dessa exposição há um painel que fala do Faial em particular, porque embora a base naval não se tivesse instalado aqui, o primeiro ponto onde Roosevelt desembarca nos Açores é precisamente o porto da Horta e faz, a expressão é minha, um “roteiro sentimental” aqui pelas antigas casas dos Dabney: a Bagatelle, os Cedars...
Os Delano’s, a sua família materna, eram uma família americana estabelecida em New Bedford, que era um importante porto baleeiro. E Roosevelt, na sua infância, ia sempre passar as férias grandes do verão a casa dos avós maternos em New Bedford e portanto ele cresce também num ambiente de um porto baleeiro. É curioso que ele quando passa depois aqui pela Horta escreve uma carta à sua mulher, Eleanor Roosevelt, em que se confessa encantado. Ele diz “isto é muito curioso, é extraordinário, está a trazer-me recordações, parece uma cidade baleeira na América do norte”. E ele também tinha a noção de quem eram os Dabney, porque os Dabney são uma família do patriciado da zona da Nova Inglaterra, e portanto analisando o texto da carta, chegamos à conclusão que de alguma forma, ao visitar aqui a Horta, ele encontra coisas com as quais já estava familiarizado.

Qual é o balanço final que faz destas três sessões?
Não foi possível assistir às sessões de trabalho de ontem, por causa das condições meteorológicas, mas assisti às outras sessões e faço um balanço extremamente positivo. As comunicações e as participações foram de grande qualidade e sobretudo trouxeram um contributo historiograficamente original em relação a um período da história sobre a qual pouco se sabe. O primeiro quartel do Séc. XX; estes primeiros 25 anos, não têm sido muito estudados. E muito menos tem havido um contributo historiográfico estrangeiro. Se eu passar em revista todas as comunicações nas diversas secções e nas diversas sessões de trabalho do Colóquio acho francamente que no final e sobretudo quando o Colóquio tiver as suas actas publicadas em livro, o saldo é bastante positivo. Passe o auto-elogio à organização e à Direcção Regional da Cultura que teve a ideia de promover esta iniciativa. De facto estamos todos de parabéns porque podemos dizer com a consciência perfeitamente tranquila que contribuímos para acrescentar mais conhecimento ao estudo do que foram os açores no inicio do Séc. XX.

Colaboradores:


Capa: Gaspar Pedro
Música: Miguel Machete
Arquitectura e Artes Plásticas: Joana Soares
Literatura: Lélia Nunes
Entrevista: Maria do Céu Brito
Ciência: PNF
Gatafunhos: Tomás Melo

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Edição nº 57





Crónica

Encontros Filosóficos - um projecto de natureza interdisciplinar

Os Encontros Filosóficos são um projecto de natureza interdisciplinar. Nasceram na sequência do trabalho de reflexão/ crítica de problemas do mundo contemporâneo, realizadas pelos alunos de Filosofia. Foi há dezoito anos! E isto significa que os Encontros Filosóficos atingiram a maioridade. E assim sendo, adquiriram pelo menos o “direito” a serem reconhecidos como projecto pedagógico que vingou, apesar das sucessivas alterações de programas, dos currículos, da organização da escola.

Recordo que há exactamente dezoito anos, todos os alunos de Filosofia do 12º ano apresentaram os seus trabalhos na Sociedade “Amor da Pátria”. Sob o olhar atento, compreensivo e disponível da professora Isabel Renaud, levantavam problemas, faziam formulações teóricas, questionavam o mundo, expunham-se, construíam a aprendizagem de forma activa e responsável. Muito tempo antes de se anunciar nos curricula a “Área de Projecto”.

Ao longo dos dezoito anos, realizaram-se encontros, debates e actividades didáctico-pedagógicas de grande mérito. Relembro as Oficinas de escrita criativa com o escritor José Fanha, e José Luis Peixoto, os encontros com os professores Adriano Moreira, Carlos Fiolhais, Galopim de Carvalho, Carvalho Rodrigues, Alexandre Quintanilha, entre outros. As reflexões desenvolvidas por Daniel Serrão, Álvaro Laborinho Lúcio, Mário Soares, o professor Carlos Reis. Passaram ainda pela cidade da Horta poetas e artistas, como João Cutileiro, que desenvolveu com os alunos de Artes, durante uma semana, um workshop de escultura.

No âmbito da formação de professores, recordo o trabalho de hermenêutica realizado pelo José Trindade dos Santos, o workshop de Filosofia para Crianças orientado por docentes da Universidade Católica, os sucessivos encontros com a professora Gabriela Castro, da Universidade dos Açores.

Em 2011 surgem novos e grandes desafios. Professores da Universidade de Santiago de Compostela e Valência deslocar-se-ão à Horta para trabalhar com alunos, professores, empresários e a comunidade em geral (projecto decorrente das parcerias com a CCIH e Associação de Agricultores da Horta). Realizar-se-ão ainda oficinas de escrita criativa e dramaturgia, música e ilustração. Realizar-se-á um workshop de Teatro do Oprimido (em parceria com o Teatro de Giz), um workshop de cinema e fotografia (em parceria com o Jornal Fazendo) São desafios formativos, intelectuais e comunicacionais únicos!
O projecto Encontros Filosóficos, organizado pela Escola Secundária Manuel de Arriaga é um projecto aberto, comum e quer-se participado por toda a comunidade de Pais, Encarregados de Educação, professores e Cidadãos em geral! Inscreva-se nas acções! Participe nos Fóruns de Discussão! Torne este projecto Um ESPAÇO COMUM DE TRABALHO E DE INOVAÇÃO!

Maria do Céu Brito

Colaboradores:


Capa: Luís Silva
Entrevistas: Fernando Nunes
Arquitectura e Artes Plásticas: Rita Braga
Literatura: Cátia Benedetti
Teatro: Tomás Motos, Victor Rui Dores
Ciência: RSS, José Nuno Pereira
Gatafunhos: Tomás Melo

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segunda-feira, 21 de março de 2011

Edição nº56





Crónica

Dia Mundial do Teatro

O Dia Mundial do Teatro é comemorado a 27 de Março. Uma das mais importantes manifestações desta comemoração é a difusão da mensagem escrita por uma personalidade de dimensão mundial, convidada pelo Instituto Internacional do Teatro, para partilhar as suas reflexões. Esta mensagem é traduzida em mais de vinte línguas e lida perante milhares de espectadores antes dos espectáculos de 27 de Março, nos teatros do mundo Inteiro.

Este ano a personalidade escolhida foi a africana Jessica Atwooki Kaahwa.

Nota Biográfica de Jessica Atwooki Kaahwa

Professora titular no Departamento de Música, Dança e Teatro da Universidade de Makerere, no Uganda. É doutorada em Teatro, História, Teoria e Crítica pela Universidade de Maryland, nos EUA.

Dramaturga, actriz e directora do teatro académico, escreveu mais de 15 peças de teatro, televisão e rádio.

Distingue-se pelo seu trabalho humanitário. Utiliza o teatro como meio de desenvolvimento humano e como força construtiva em zonas de conflito.

Esta personagem multilingue é acérrima defensora dos direitos humanos, da igualdade de género e da paz.

Mensagem do Dia Mundial do Teatro
O TEATRO AO SERVIÇO DA HUMANIDADE
por Jessica Atwooki Kaahwa

Este é o momento exacto para uma reflexão sobre o imenso potencial que o Teatro tem para mobilizar as comunidades e criar pontes entre as suas diferenças.

Já, alguma vez, imaginaram que o Teatro pode ser uma ferramenta poderosa para a reconciliação e para a paz mundial?

Enquanto as nações consomem enormes quantidades de dinheiro em missões de paz nas mais diversas áreas de conflitos violentos no mundo, dá-se pouca atenção ao Teatro como alternativa para a mediação e transformação de conflitos. Como podem todos os cidadãos da Terra alcançar a paz universal quando os instrumentos que se deveriam usar para tal são, aparentemente, usados para adquirir poderes externos e repressores?

O Teatro, subtilmente, permeia a alma do Homem dominado pelo medo e desconfiança, alterando a imagem que tem de si mesmo e abrindo um mundo de alternativas para o indivíduo e, por consequência, para a comunidade. Ele pode dar um sentido à realidade de hoje, evitando um futuro incerto.

O Teatro pode intervir de forma simples e directa na política. Ao ser incluído, o Teatro pode conter experiências capazes de transcender conceitos falsos e pré-concebidos.

Além disso, o Teatro é um meio, comprovado, para defender e apresentar ideias que sustentamos colectivamente e que, por elas, teremos de lutar quando são violadas.
Na previsão de um futuro de paz, deveremos começar por usar meios pacíficos na procura de nos compreendermos melhor, de nos respeitarmos e de reconhecer as contribuições de cada ser humano no processo do caminho da paz. O Teatro é uma linguagem universal, através da qual podemos usar mensagens de paz e de reconciliação.

Com o envolvimento activo de todos os participantes, o Teatro pode fazer com que muitas consciências reconstruam os seus pré-conceitos e, desta forma, dê ao indivíduo a oportunidade de renascer para fazer escolhas baseadas no conhecimento e nas realidades redescobertas.

Para que o Teatro prospere entre as outras formas de arte, deveremos dar um passo firme no futuro, incorporando-o na vida quotidiana, através da abordagem de questões prementes de conflito e de paz.

Na procura da transformação social e na reforma das comunidades, o Teatro já se manifesta em zonas devastadas pela guerra, entre comunidades que sofrem com a pobreza ou com a doença crónica.

Existe um número crescente de casos de sucesso onde o Teatro conseguiu mobilizar públicos para promover a consciencialização no apoio às vítimas de traumas pós-guerra.

Faz sentido existirem plataformas culturais, como o Instituto Internacional de Teatro, que visam consolidar a paz e a amizade entre as nações.

Conhecendo o poder que o Teatro tem é, então, uma farsa manter o silêncio em tempos como este e deixar que sejam “guardiães” da paz no nosso mundo os que empunham armas e lançam bombas.

Como podem os instrumentos de alienação serem, ao mesmo tempo instrumentos de paz e reconciliação?
Exorto-vos, neste Dia Mundial do Teatro, a pensar nesta perspectiva e a divulgar o Teatro, como uma ferramenta universal de diálogo, para a transformação social e para a reforma das comunidades.

Enquanto as Nações Unidas gastam somas colossais em missões de paz com o uso de armas por todo o mundo, o Teatro é uma alternativa espontânea e humana, menos dispendiosa e muito mais potente.

Não será a única forma de conseguir a paz, mas o Teatro, certamente, deverá ser utilizado como uma ferramenta eficaz nas missões de paz.

Anabela Morais

Colaboradores:


Capa: http://cidadepintada.blogspot.com
Arquitectura e Artes Plásticas: Paula Bacelar
Literatura: Tomás Melo
Teatro: Miguel Machete
Ciência: Fernando Nunes, Carla Veríssimo, PNF
Gatafunhos: Tomás Melo

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